Tendo por base um apontamento do psiquiatra Luis Rojas Marcos, é muito fácil promover um ambiente saudável e feliz para os nossos filhos desde a tenra idade; basta que tenhamos em mente que os pais também devem estar bem e felizes e com vontade de partilhar essa missão com prazer, mas também sabendo lidar com os momentos menos positivos.
Para facilitar a tarefa, o especialista lembra que as crianças e jovens de hoje estão superestimulados e sem tempo para desenvolverem o que lhes é mais essencial para um desenvolvimento saudável, que requer:
• Pais emocionalmente disponíveis
• Limites claramente definidos
• Responsabilidades
• Nutrição equilibrada e um sono adequado
• Movimento em geral, mas especialmente ao ar livre
• Jogo criativo, interação social, oportunidades de jogo não estruturadas e espaços para o tédio
Em vez disso, estes últimos anos encheram as crianças de:
• Pais distraídos digitalmente
• Pais indulgentes e permissivos que deixam as crianças “governar o mundo” e permitem que sejam elas a ditar as regras
• Um senso de direito, de merecer tudo sem merecer ou ser responsável por obter
• Sono inadequado e nutrição desequilibrada
• Um estilo de vida sedentário
• Excesso de estimulação que envolve “babas” tecnológicas, gratificação instantânea e ausência de momentos chatos.
Luís Rojas Marcos alerta: «Se queremos que os nossos filhos sejam indivíduos felizes e saudáveis, temos de acordar e voltar ao básico. Ainda é possível!». Muitas famílias veem melhorias imediatas após semanas de implementação das seguintes recomendações:
• Estabeleça limites e lembre-se de que os pais “são os capitães do navio” e de que os seus filhos vão sentir-se muito mais seguros por saberem que os pais estão ali a comandar as operações, porque eles não sabem e não conseguem fazê-lo sozinhos.
• Ofereça às crianças um estilo de vida equilibrado com o que elas realmente precisam e não só com o que querem. Dizer “não” é tão ou mais importante do que dizer “sim”.
• Forneça alimentos nutritivos e limite a comida de plástico.
• Passe pelo menos uma hora por dia ao ar livre em atividades como: ciclismo, caminhada, pesca, observação de aves/insetos.
• Desfrute de um jantar de família diário sem smartphones ou tecnologia que os distraia.
• Proporcione momentos com jogos de tabuleiro em família e, quando as crianças são muito pequenas, ajuste a atividade à idade.
• Envolva os seus filhos numa tarefa ou trabalho de casa de acordo com a idade (dobrar a roupa, arrumar os brinquedos, pendurar a roupa, desembalar as compras, colocar a mesa, alimentar o cão, entre outros).
• Implemente uma rotina de sono consistente para garantir que o seu filho dorme o suficiente. Tenha em conta a idade e o tempo de sono recomendado pelos especialistas.
• Ensine responsabilidade e independência. Não os proteja excessivamente contra frustrações ou erros. O erro ajuda-nos a desenvolver resiliência e a aprender a superar os desafios da vida.
• Não carregue as mochilas dos seus filhos, não lhes faça a tarefa de que se esqueceram, não descasque as bananas nem as laranjas se o puderem fazer sozinhos (4-5 anos). Em vez de lhes dar o peixe, ensine-os a pescar.
• Ensine-os a esperar. Não lhes dê gratificações imediatas.
• Proporcione oportunidades para o "tédio", pois o tédio é o momento em que a criatividade desperta. Não se sinta responsável por manter as crianças sempre entretidas. É essencial que encontrem soluções para que ocupem o tempo.
• Não use a tecnologia como cura para o tédio. Limite o tempo de ecrã para incentivar as crianças e jovens a fazer algo diferente.
• Evite o uso de tecnologia durante as refeições, em automóveis, restaurantes, centros comerciais. Use estes momentos como oportunidades para socializar. Desse modo, os seus filhos estão a preparar-se para saber lidar com o tédio.
• Ajude-os a fazer uma lista de tarefas/atividades que podem fazer quando estiverem entediados.
• Esteja emocionalmente disponível para se conectar com as crianças e para lhes ensinar autorregulação e habilidades sociais:
• Desligue os telefones à noite quando as crianças tiverem que ir para a cama para evitar a distração digital.
• Torne-se um regulador ou treinador emocional dos seus filhos. Ensine-os a reconhecer e a gerir as suas próprias frustrações e raiva.
• Ensine-os a cumprimentar, a fazer um favor, a partilhar, a dizer obrigado e por favor, a reconhecer o erro e a pedir desculpas (não os obrigue); seja o modelo de todos esses valores que incute.
• Conecte-se emocionalmente – sorria, abrace, beije, faça cócegas, leia, dance, pule, brinque ou rasteje com eles.
O psiquiatra Luis Rojas Marcos sublinha a importância da simplicidade, do apoio, do afeto e da compreensão, que são essenciais em todas as etapas de vida, tal como as regras, a negociação e os limites — ingredientes fundamentais para construir uma relação positiva entre pais e filhos, desenvolver o respeito e os demais valores que preparam os nossos filhos para a vida. E, se ainda não iniciou este desafio diário, saiba que está sempre a tempo, pois os nossos filhos estão sempre prontos para receber o melhor que temos para lhes dar, mesmo que pensemos que já é tarde e que nada podemos alterar.