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Riscos de ver os filhos sempre como crianças

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É comum, especialmente no nosso país, que muitos pais tratem os filhos como “eternas” crianças e que nem pensem nas consequências das suas ações.

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A psicologia afirma que, ver os filhos sempre como crianças — ou tratá-los como tal à medida que crescem — bloqueia o desenvolvimento da autonomia, o que gera insegurança,  dificulta a capacidade de tomar decisões e pode resultar em dependência excessiva na vida adulta, impedindo que o indivíduo assuma responsabilidades.

Os especialistas na área do desenvolvimento humano alertam que: «manter uma visão infantilizada dos filhos traz consequências profundas para a maturidade emocional e para o convívio familiar».

Como principais consequências destacam-se: a falta de resiliência que leva a que os mais novos não aprendam a lidar com a frustração, que desistam à primeira dificuldade e que não encontrem alternativas aos problemas.

A superproteção parental também conduz à baixa autoestima, ao medo e à insegurança porque estes filhos não acreditam nas suas capacidades. Tornam-se dependentes, tristes e frustrados, apáticos e na idade adulta, apresentam muitas dificuldades de socialização, fuga às responsabilidades, resistência em aceitar erros e em estabelecer relações duradouras porque também não desenvolveram a noção de compromisso.

Pessoas que permanecem infantilizadas não conseguem gerir o dinheiro, fazer escolhas, tomar decisões, "dizer não", admitir erros ou falhas, não conseguem ser bons profissionais  e até no grupo de amigos apresentam muitos conflitos internos que se projetam no contacto com os demais. Isto deve-se essencialmente à falta de autoconfiança que é essencial para que o indivíduo se assuma tal como é, que se respeite e que consiga respeitar os demais, além de admitir os seus pontos fortes e fracos, potencialidades, mas também fraquezas, valores essenciais para a convivência pessoal e social, destacam os psicólogos.

Os especialistas dizem que, muitos pais, ao não incentivarem a que os filhos façam as suas escolhas em liberdade, que os orientem, (mas que não os sufoquem), acabam por alimentar a dependência fora de tempo e por eles próprios não construírem o seu plano de vida enquanto casais, o que degrada ainda mais a relação entre pais e filhos e faz arrastar a sensação de inutilidade e incapacidade nos descendentes.

No nosso país este traço é muito comum porque há sempre um familiar disponível para ajudar, há sempre uma avó pronta para não deixar frustrar os netos, a tia que mima, a vizinha que apoia. Se é positiva a vida comunitária e a entreajuda, também é essencial que a criança possa errar, frustrar-se, sentir falta de alguma coisa, viver tédio, curiosidade, medo e liberdade, ainda que sob o olhar atento dos adultos, mas sem a sua pronta intervenção.

Para inverter a situação, os entendidos nesta matéria recomendam que os pais acompanhem o desenvolvimento dos filhos, apoiem e incentivem, «mas que não façam por eles o que eles precisam de aprender a fazer».

«Não se trata de dureza. Não se trata de deixar os filhos entregues a si próprios. Trata-se de algo mais subtil e mais exigente para os pais: aprender a tolerar o desconforto de ver o filho frustrado, para que ele aprenda a tolerar o seu próprio desconforto«, lê-se num artigo do Semanário Sol.

O que os pais entendem como proteção, a criança interpreta como desconfiança nas suas capacidades, destaca o artigo.

A International School Parent usa uma metáfora que vale a pena guardar: se segurar a mão da criança enquanto ela caminha numa corda bamba, ela chegará ao outro lado, mas o cérebro não terá construído os circuitos neurológicos necessários para o fazer sozinha da próxima vez. Se, em vez disso, o pai for a rede lá em baixo, a criança vai tremer, vai suar, mas vai aprender.

É esta distinção, entre ser a mão e ser a rede, que a psicologia do desenvolvimento tem colocado no centro da discussão sobre parentalidade eficaz, lê-se no mesmo semanário.

Em termos concretos, significa:

Deixar a criança tentar abrir o pacote de bolachas, mesmo que demore três minutos

Não resolver um conflito com um colega antes de perguntar o que ela própria acha que pode fazer

Deixar que sinta a deceção de perder um jogo antes de oferecer consolo

Resistir ao impulso de terminar o trabalho de casa quando ela diz que "não sabe"

Não ligar à professora quando o filho discute uma nota, mas acompanhá-lo a fazê-lo por si próprio

A investigação mostra que as crianças observam como os adultos gerem a frustração e aprendem por imitação. Quando um pai diz "isto é chato mas eu consigo", está a ensinar muito mais do que qualquer explicação, sublinham os psicólogos citados pelo Sol.

Os psicólogos recomendam que, os pais deixem que a criança se sinta frustrada, mas que a ajudem a resolver o problema, não que facilitem a solução sem esforço e sem que os filhos tentem ultrapassar o sucedido. Assim, é essencial:

Validar o sentimento, não resolver o problema. "Estás frustrado, eu vejo isso" é diferente de "deixa estar, eu trato."

Fazer perguntas antes de dar respostas. "O que achas que podes tentar?" é mais poderoso do que a solução imediata.

Celebrar a tentativa, não apenas o resultado. Uma criança que tentou e falhou aprendeu mais do que uma que não tentou.

Modelar a frustração em voz alta. Dizer "estou frustrado com isto mas vou tentar de outra maneira" em frente aos filhos é uma aula em tempo real.

Recuar gradualmente. A independência não se instala de um dia para o outro. Começa com pequenas coisas, na segurança de casa.

A investigação publicada na Self-Determination Theory confirma que apoiar a autonomia da criança, ou seja, cultivar a sua capacidade crescente de agir por conta própria, está diretamente relacionado com maior bem-estar psicológico.

Por fim, é imperioso destacar que, «a psicologia não pede pais distantes. Pede pais que saibam distinguir quando ajudar e quando esperar».

E é essa confiança, repetida em pequenas doses ao longo dos anos, que constrói a criança que um dia vai resolver os seus próprios problemas, sem precisar que ninguém lhe abra o pacote de bolachas, finaliza o artigo do Semanário Sol.