Sociedade

Projeto Sexto Sentido chegou ao distrito de Faro para devolver liberdade no desporto

Sexto Sentido Portugal em Faro
Sexto Sentido Portugal em Faro  
Apaixonada pelo desporto e pela corrida, Bárbara perdeu a visão em 2017. Sentiu que a liberdade que o desporto e a corrida lhe davam tinha desaparecido. Contudo, não aceitou essa limitação e encontrou nos guias voluntários a solução para reconquistar a independência. Percebeu que, como ela, muitas outras pessoas cegas ou com baixa visão poderiam descobrir no desporto uma forma de inclusão, autonomia e bem-estar.

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Foi assim que surgiu o Sexto Sentido Portugal - um projeto que permite a pessoas com deficiência visual correr e caminhar com segurança. Uma ideia que tem crescido no país, ajudando centenas de atletas e voluntários. O Sexto Sentido já chegou a Faro, mas a meta é estender-se a outros concelhos algarvios. 

O Algarve Primeiro falou com Bárbara Pereira, mentora do Sexto Sentido Portugal, que explicou como o projeto tem transformado a vida de muitas pessoas. 

Como nasceu o projeto?

Não posso falar deste projeto sem começar pela minha própria história. Fiquei cega de forma repentina em 2017 e não estava minimamente preparada para essa realidade. Durante o meu processo de reabilitação, senti uma enorme falta de voltar a correr. Sendo cega total, correr deixou de ser simplesmente calçar as sapatilhas e sair de casa. Passei a depender sempre de outra pessoa. E, naturalmente, ninguém gosta de sentir que está a ser um peso, mesmo sabendo que pode contar com família ou amigos. 

Comecei então à procura de soluções que me permitissem recuperar essa liberdade, não necessariamente para competir, mas para poder correr quando quisesse, com autonomia. No Porto, não encontrei respostas. Entretanto, descobri projetos internacionais muito simples, baseados em bolsas de guias voluntários que permitem a pessoas cegas ou com baixa visão correr e caminhar em segurança. Percebi imediatamente que era exatamente isso que faltava em Portugal, algo que respondia não só à minha necessidade, mas certamente à de muitas outras pessoas. Foi assim que nasceu a ideia. Entre 2018 e 2019, comecei a implementar o projeto no Porto, inicialmente com um pequeno grupo de 10 a 15 pessoas, maioritariamente amigos que se voluntariaram como guias. Com a pandemia, houve uma pausa, mas depois candidatámo-nos ao Programa de Responsabilidade Social Heróis Betano, que foi determinante para o crescimento e visibilidade do projeto.

A partir daí, a expansão foi muito rápida. Hoje temos nove núcleos ativos e mais de 500 membros - cerca de 180 pessoas com deficiência visual e os restantes guias voluntários. Só em 2024 e 2025, participámos em 123 provas, com 595 duplas. Este crescimento também só é possível graças ao apoio de organizações como a HMS, a Global Sport e o Maratona Clube de Portugal, que facilitam as inscrições, algo essencial, já que a participação tem de ser sempre em dupla.

Tem apoios do Estado ou de fundos europeus?

Atualmente, contamos com o apoio do Programa de Responsabilidade Social Heróis Betano, que tem sido fundamental, sobretudo na expansão do projeto. Em 2024, recebemos também o Prémio Desporto + Acessível, atribuído pelo Instituto Nacional para a Reabilitação e pelo Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ), o que representou um reconhecimento muito importante.

Integramos ainda o Programa Nacional de Desporto para Todos, embora numa vertente mais ligada à formação. Temos atualmente quatro faculdades parceiras e desenvolvemos a formação “Guiar com Sentido”, dirigida aos nossos voluntários. Paralelamente ao desporto, estamos a expandir a nossa atuação para áreas como a empregabilidade e a cultura, promovendo a acessibilidade através de ações de formação. O foco mantém-se sempre o mesmo: a inclusão de pessoas com deficiência visual.

Em que distritos já está implantado?

Estamos presentes no Porto, Vila Real, Aveiro, Braga, Coimbra, Lisboa, Faro e na Madeira. Em setembro, chegaremos aos Açores, com o apoio do programa Heróis Betano, e ainda este ano a Bragança. O objetivo é atingir 11 núcleos até ao final de 2026.

De que forma os beneficiários podem aderir?

O processo é muito simples: basta aceder ao site sextosentidoportugal.com, clicar em “Quero Participar” e preencher o formulário. Depois disso, a pessoa será contactada pela nossa equipa e integrada no núcleo mais próximo, seja como participante com deficiência visual ou como guia voluntário.

A equipa (acompanhantes) é formada por voluntários ou por profissionais?

A equipa é maioritariamente composta por voluntários. No entanto, contamos também com o apoio de faculdades parceiras, que contribuem para a formação através de técnicos e professores.

A formação “Guiar com Sentido”, já acreditada pelo IPDJ, aborda temas essenciais como comunicação, ética, segurança e técnicas de guia. O objetivo é desmistificar a deficiência, normalizar a interação e preparar os voluntários para o seu papel com confiança e responsabilidade.

No distrito de Faro, atua num concelho ou o objetivo é expandir-se a outros da região?

Neste momento estamos centrados em Faro, mas o objetivo é claramente expandir. Sempre foi essa a visão: ter guias espalhados por todo o território, com formação e sensibilidade para a temática.

Um dos principais desafios é a mobilidade. Muitas pessoas têm dificuldade em chegar aos treinos ou provas devido à falta de transportes. Por isso, quanto mais distribuídos estiverem os guias, maior será a capacidade de resposta. Além disso, os próprios guias ajudam muitas vezes na organização de boleias e na criação de redes de apoio. Este trabalho em rede é essencial para o impacto e crescimento do projeto.