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Pessoas que têm medo de ficar sozinhas

Muitas pessoas, ao se verem sozinhas, tomam decisões apressadas e acabam por entrar em relações que não são ideais.
Muitas pessoas, ao se verem sozinhas, tomam decisões apressadas e acabam por entrar em relações que não são ideais.  
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Há muitas pessoas que só estão com alguém porque têm medo de estar sozinhas.

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De acordo com uma publicação do Provocações Filosóficas, se pode parecer angustiante ficar sozinho, não menos o é estar com alguém só para não sentir esse desconforto.

Segundo o mesmo apontamento, a solidão é uma das experiências emocionais mais desafiadoras que podemos enfrentar porque somos obrigados a olhar para nós próprios. Nesses momentos sem distrações externas, somos levados a experimentar sentimentos de vazio, angústia e insegurança. No entanto, a solidão não é apenas um espaço de ausência, mas também uma oportunidade para o autoconhecimento e a reflexão. Quando não compreendida ou mal gerida, a solidão pode conduzir-nos a decisões impulsivas, como a busca por relacionamentos, nem sempre saudáveis, apenas para evitar o sofrimento do isolamento.

Muitas pessoas, ao se verem sozinhas, tomam decisões apressadas e acabam por entrar em relações que não são ideais. O desejo de preencher o vazio emocional pode ser tão intenso que o medo da solidão parece mais ameaçador do que os danos potenciais de estar num relacionamento tóxico. É aqui que começa o ciclo vicioso: maus  relacionamentos alimentam a solidão e, por sua vez, a solidão alimenta a procura por mais relacionamentos errados.

Segundo o Provocações Filosóficas, esse fenómeno é comum e frequentemente observado em pessoas que, por não saberem lidar com a solidão de maneira saudável, se veem dispostas a sacrificar a  sua felicidade e bem-estar em nome da companhia.

Esse comportamento pode ser comparado a uma fuga. Ao invés de enfrentarem o vazio interno e refletirem sobre  as suas próprias necessidades, muitos optam por uma solução rápida e superficial: ter alguém. Mas, ao fazerem isso, estas pessoas acabam por entrar em relações que lhes exigem mudanças profundas, muitas vezes forçadas, de adaptação ao parceiro.

A pressão para agradar, para ser o que o outro espera, pode criar um ambiente de constante insatisfação e frustração. Isso acontece porque, ao entrar num relacionamento para fugir da solidão, o indivíduo acaba por afastar-se da sua própria essência, fazendo ajustes e cedendo a desejos que não são seus, mas sim do outro. A verdadeira felicidade e a construção de uma identidade saudável não podem ser baseadas em ajustes constantes para se encaixar nos padrões do parceiro, alerta o Provocações Filosóficas no mesmo apontamento, «Mas existe algo ainda mais devastador nesse tipo de opção: os relacionamentos prejudiciais, para além de desgastarem a autoestima, têm o poder de acentuar a solidão».

Como muitas vezes o parceiro não consegue preencher as necessidades emocionais de maneira plena e saudável, o indivíduo sente-se ainda mais isolado e desconectado, não apenas das outras pessoas, mas também de si mesmo. A solidão que se evitou ao entrar num relacionamento, paradoxalmente, volta de forma mais intensa e dolorosa, criando um estado de frustração e desesperança, regista o mesmo apontamento.

A filosofia existencialista ajuda-nos a refletir sobre como a solidão e os relacionamentos se inter-relacionam. Para pensadores como Jean-Paul Sartre, a solidão é um estado essencial para a compreensão da própria liberdade e da autenticidade. Quando alguém entra num relacionamento por medo da solidão, em vez de se fortalecer com a própria companhia, acaba por perder a sua liberdade e por submeter-se a uma forma de dependência emocional.

Sartre sugere que, «a incessante procura de aprovação e reconhecimento externo, seja numa relação amorosa, seja numa qualquer outra ligação interpessoal, acaba por afastar-nos da nossa verdadeira essência, o que resulta num vazio existencial ainda mais profundo.

Essa perda de identidade e autonomia é o que muitos enfrentam ao entrar em relacionamentos destrutivos. A necessidade de “ter alguém” muitas vezes apaga o próprio desejo de ser feliz de forma plena e independente. A solidão, quando mal vivida, acaba por tornar-se um reflexo distorcido de si mesmo, onde o medo de ficar só ultrapassa a coragem de procurar o próprio equilíbrio. O custo desse comportamento é alto: a solidão não só é evitada, mas também ignorada, criando uma falsa ilusão de conexão. Em vez de uma convivência genuína, o relacionamento transforma-se numa máscara que esconde a dor, tornando-se um campo fértil para frustrações e sofrimentos.

Quando olhamos para os impactos de um relacionamento prejudicial ou tóxico, é possível ver como o mesmo alimenta o ciclo da solidão de maneira ainda mais destrutiva. Ao tentar escapar da solidão através de um parceiro que não nos compreende ou não nos respeita, a dor emocional multiplica-se. O sofrimento torna-se mais intenso porque não provém apenas da ausência de companhia, mas da constante sensação de estar preso num lugar onde não somos verdadeiramente amados ou respeitados. A pessoa, então, vê-se forçada a aceitar um padrão de relacionamento que, ao invés de promover o crescimento, a força e a felicidade, coloca-a num estado constante de angústia, onde a solidão do começo da jornada parece uma opção mais desejável do que continuar a viver com alguém que não preenche as suas necessidades emocionais de maneira saudável, justificam os especialistas do Provocações Filosóficas.

O paralelo entre a solidão e os relacionamentos destrutivos é claro: em vez de procurar um parceiro para preencher um vazio emocional, é fundamental que a pessoa compreenda que esse vazio só pode ser preenchido com a aceitação de si mesma. Somente a partir do autoconhecimento, do entendimento das próprias necessidades e da capacidade de lidar com a solidão de forma construtiva é que a verdadeira conexão com o outro pode ser alcançada. A busca por companhia não deve ser um reflexo de fuga, mas uma escolha consciente e madura, que visa a construção de um relacionamento saudável, onde ambas as partes crescem e evoluem juntas.

A solidão não precisa de  ser encarada como uma adversária ou algo a ser evitado a todo o custo. Pelo contrário, pode ser uma aliada no processo de autodescoberta e crescimento. O problema não está em estar sozinho, mas em procurar relacionamentos que não atendem às nossas necessidades reais, apenas para evitar a dor da solidão.

«Um relacionamento saudável surge quando, primeiro, somos capazes de aceitar-nos, compreender as nossas próprias necessidades e, só então, permitir que o outro adicione valor à nossa vida. A verdadeira felicidade e realização não vêm de estar com alguém, mas de estar em paz consigo mesmo», destaca o Provocações Filosóficas.

Para finalizar, torna-se imperioso que, cada um de nós aprenda a gostar de si mesmo, a respeitar-se e a cuidar-se carinhosamente para que se conheça melhor, que se valorize e, só depois, se disponibilize para conviver de forma mais íntima com outras pessoas, pois quando não estamos bem connosco próprios, mais dificilmente estaremos bem com alguém.

É fundamental que reservemos um tempo diário para ouvirmos o nosso “eu” interior, que descubramos as nossas verdadeiras necessidades, desejos e vontades para que façamos melhores opções entre as pessoas que conhecemos e as que estamos dispostas a conhecer. Partindo de nós, será mais simples entender quem melhor nos poderá respeitar e aceitar tal como somos, sem ter de criar um personagem para agradar ao outro. Numa relação que se quer equilibrada, ambas as partes têm de sentir-se confortáveis, amadas, respeitadas e acarinhadas.