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O que se passa com as pessoas que estão sempre insatisfeitas?

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Precisam de emoções e de validação externas, entram facilmente em tédio e raramente gostam do que têm.

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Há pessoas que estão num estado permanente de insatisfação porque não aceitam a sua própria realidade e andam sempre à procura de algo do exterior.

Uma das explicações para esse problema pode ser a presença da Síndrome de Madame Bovary (ou bovarismo) – um padrão comportamental caracterizado por uma insatisfação afetiva e crónica, resultante de uma discrepância profunda entre as expectativas românticas idealizadas e a realidade quotidiana.

De acordo com a informação a que o Algarve Primeiro teve acesso, o conceito inspira-se no célebre romance Madame Bovary (1857), escrito por Gustave Flaubert, cuja protagonista, Emma Bovary, alimenta ilusões românticas excessivas através da leitura e sente-se profundamente frustrada com a monotonia do seu casamento e da sua vida real.

Segundo a Wikipédia, o termo "bovarismo" foi cunhado em 1892 pelo filósofo francês Jules de Gaultier no ensaio Le Bovarysme, que descreveu a faculdade de "conceber-se diferente do que se é", sendo posteriormente analisado e incluído na área da psicologia comportamental.

Entre as principais características desta síndrome, os especialistas destacam:

• Idealização excessiva: A pessoa procura um amor perfeito, épico ou digno de ficção, ignorando as imperfeições naturais das relações humanas.

• Insatisfação crónica: Existe um sentimento constante de tédio, vazio e infelicidade, pois a realidade nunca corresponde às fantasias criadas.

• Evasão da realidade: Tendência a refugiar-se em devaneios, romances ou idealizações, por vezes adotando comportamentos de infidelidade, exigência excessiva ou dependência emocional em relação ao parceiro.

• Impacto emocional: Esta síndrome pode vir acompanhada de quadros de ansiedade, distimia ou melancolia devido ao ciclo perpétuo de expectativas frustradas.

A psicologia explica que as relações com pessoas portadoras desta síndrome podem constituir um grande desafio na medida em que a pessoa vive num ciclo constante de idealização e rutura, o que provoca muito desgaste, ilusão e desilusão e, acima de tudo, uma permanente sensação de “incompetência” em quem está ao seu lado, pois nunca é suficiente para estar à altura daquela pessoa.

O parceiro começa por ser “perfeito”, mas à medida que o tempo passa e surgem as primeiras divergências no seio do casal, a pessoa com síndrome de Bovary começa a culpabilizar quem está ao seu lado por tudo o que lhe acontece, pela sua insatisfação e desilusão e a relação começa a perder o interesse porque se perde a fantasia.

Estas pessoas exigem gestos românticos, desejam à força que a perfeição se mantenha como idealizam, querem novidades e declarações de amor constantes, sob pena de ameaçarem sair do relacionamento. Esta condição coloca uma pressão muito elevada no parceiro, levando a estados de ansiedade, insatisfação e culpa.

Como consequência, estas relações são muito instáveis, desgastantes e baseadas na artificialidade. O romantismo dos portadores de bovarismo é de tal ordem que, quando a cara-metade não corresponde ao que desejam, substituem-na, levando a atos de infidelidade ou rutura da relação por muito tempo que se tenha passado entre ambos.

Quem convive com esta dinâmica tende a sentir-se esgotado, inseguro e frustrado, pois assume o papel impossível de tentar preencher um vazio emocional que a própria pessoa não consegue ultrapassar.

Os psicólogos recomendam um conjunto de estratégias que podem ajudar a lidar com este tipo de pessoas, mas ressalvam a importância de um acompanhamento terapêutico sempre que necessário e, antes de entrar em estados de destruição e de desvalorização pessoal, que o parceiro saia da relação.

• Estabelecer limites claros: Defina o que é aceitável e recuse-se a carregar a responsabilidade pela felicidade ou pelo tédio da outra pessoa. Não ceda a dramas ou exigências irreais.

• Promover o diálogo realista: Incentive conversas honestas sobre a rotina e o quotidiano. Mostre que o amor maduro e saudável é construído na simplicidade do dia a dia, e não em picos constantes de adrenalina ou paixão idealizada.

• Incentivar a autonomia: Estimule a pessoa a focar-se nos seus próprios objetivos profissionais, passatempos ou amizades. Isso ajuda a descentrar a relação como única fonte de satisfação e sentido de vida.

• Evitar alimentar as fantasias: Não tente competir com as expectativas literárias ou cinematográficas dela. Mantenha os pés no chão e reforce o valor das ações reais e concretas que demonstra na relação.

• Recomendar apoio psicoterapêutico: O bovarismo está profundamente enraizado em traços de personalidade e feridas emocionais antigas. A psicoterapia de abordagem cognitivo-comportamental ou a terapia de casal são essenciais para ajudar a pessoa a reestruturar as suas expectativas e aceitar a realidade.

Por fim, é importante ter em conta que ninguém tem de conviver permanentemente com este tipo de relação destrutiva que, em muitos casos, não conhece outra dinâmica. O nosso amor-próprio deve sempre imperar, pelo que cabe a cada pessoa a liberdade de aceitar ou não manter um relacionamento nestes moldes, recomendam os profissionais de psicologia.