Cultura

Governo entregou Medalha de Mérito Cultural a Lídia Jorge em Loulé

Fotos - CM Loulé
Fotos - CM Loulé  
A Ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes, esteve em Loulé, na segunda-feira, dia 8, para homenagear a escritora Lídia Jorge na sua terra natal. Em nome do Governo, a ministra entregou a Medalha de Mérito Cultural a uma das maiores figuras do pensamento europeu contemporâneo.

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Conforme explica a Câmara de Loulé numa nota divulgada, a romancista aceitou a distinção, destacando a sensibilidade da ministra ao assinalar publicamente o seu percurso literário, sublinhando que os mesmos livros e desafios “poderiam ter passado despercebidos”. Lídia Jorge celebrou o facto de a homenagem acontecer “ao fim da tarde, entre amigos”, na sua terra natal.

Segundo a autarquia, a homenagem a Lídia Jorge pretendeu exaltar o percurso de 50 anos «como uma voz fundamental na literatura portuguesa, focada na memória, condição humana e democracia». 

Para a Ministra Margarida Balseiro Lopes, a distinção, que celebra também o 80º aniversário da autora (no próximo dia 18 de junho), reconhece o impacto internacional da sua obra e o seu contributo «extraordinário» para a cultura nacional.

A responsável da pasta da Cultura relevou o impacto de “O Dia dos Prodígios”, o primeiro livro editado pela autora, em 1980, “uma das obras mais marcantes da literatura portuguesa do pós-25 de Abril”, sublinhando a projeção internacional da escritora e o seu papel fundamental na interpretação da sociedade contemporânea.

“Do Prémio Ricardo Malheiros ao recente Prémio Pessoa, passando por importantes distinções internacionais, os reconhecimentos acumulados ao longo das décadas refletem não apenas a relevância da sua obra, mas também o lugar muito singular que conquistou na literatura contemporânea internacional. Contudo, mais do que os prémios ou as distinções, aquilo que permanece é a força de uma escrita que continua a dialogar com diferentes gerações de leitores – e a manter uma notável capacidade de interrogar o presente através da literatura.”, afirmou Margarida Balseiro Lopes.

Convidado para estar presente na cerimónia, Dino D’Santiago disse que: “Lídia Jorge nasceu a 18 de junho de 1946. O céu sorriu! Sorriu porque, de vez em quando, nasce alguém capaz de recordar à Humanidade aquilo que ela se esforça tanto por se esquecer: a sua própria Humanidade!”, afirmou o artista.

Lembrando as raízes da romancista em Boliqueime, “filha daqueles que conhecem o peso do sol sobre os ombros”, o músico destacou o legado único da autora: “Há pessoas que herdam propriedades, outras herdam apelidos, Lídia Jorge herdou uma coisa mais rara: o conhecimento profundo da condição humana”. Dino D’Santiago contextualizou ainda o dia de nascimento da escritora com marcos históricos globais - a revolta contra o Colonialismo em Goa, a escolha da República em Itália que veio pôr termo à “sombra do Fascismo”, e a fundação do Banco Mundial -, associando o nascimento da autora aos valores da Democracia, Libertação e Construção.

“Num tempo em que tanto se escolhe o ruído, ela escolheu escutar”, enfatizou o cantor, concluindo que a obra de Lídia Jorge permanece viva porque "não nasce da ideologia, nasce da compaixão, uma forma superior de inteligência”. “Uma mulher de Boliqueime continua a lembrar-nos que escrever não é simplesmente o ato de organizar palavras, é sim recusar que a Humanidade desapareça”, sublinhou ainda.

Também Telmo Pinto, presidente do Município de Loulé, destacou a profunda ligação afetiva da escritora a Boliqueime, lembrando “a cidadã que ama a sua terra”, e a sua genialidade em transpor histórias simples e a memória coletiva algarvia para uma dimensão universal. “Nunca esqueceu as suas raízes e, mesmo quando escreve para o mundo, continua a escrever a partir daqui deste nosso Sul de luz”, lembrou. E notou ainda: “Ela leva-nos daqui para o mundo, mas também traz o mundo até nós”.

O autarca afirmou igualmente que Lídia Jorge é exemplo para as novas gerações, já que representa “a profundidade, o pensamento crítico, a integridade”. E, dirigindo-se aos jovens louletanos, disse ser ela “a prova viva de que é possível sair de uma pequena terra e chegar ao mundo, sem nunca deixar de pertencer a essa terra”. 

Durante a cerimónia, Telmo Pinto anunciou que a escritora será a patrona e a figura cimeira da candidatura de Loulé a Capital Portuguesa da Cultura em 2028.

Num dia em que a Ministra esteve também num fórum, promovido pela tutela em Tavira, onde foi debatido o papel da cultura digital e o impacto das novas tecnologias, a escritora reiterou a sua convicção de que, perante o avanço da Inteligência Artificial, “a Literatura e a Poética representam, nos meios da Linguagem, o último porto seguro de resistência à robotização do pensamento, à artificialidade, à despersonalização e à homogeneização”.

Para a autora, a preocupação tecnológica não deve alarmar os criadores: “Nenhuma máquina poderá rivalizar com a capacidade criativa que nós, os seres humanos, detemos, a capacidade de juntar o que nunca foi reunido antes, e a esse compositum novo, que se forma em cada um de nós, se chama criação.”, reiterou a homenageada.