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Especialista ensina a falar de sexualidade com os filhos

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A adolescência traz dúvidas, curiosidade e novas experiências, mas também pode ser uma oportunidade para esclarecer, orientar e formar.

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Falar de sexualidade com os filhos continua a ser um desafio para muitas famílias. No entanto, abordar este tema de forma aberta, gradual e adequada à idade é essencial para promover relações saudáveis, prevenir riscos e ajudar os jovens a crescerem com informação, respeito e confiança, regista a médica Bárbara Mota.

Não existe uma idade certa para falar de sexualidade, mas sim a oportunidade certa. As conversas devem surgir de forma progressiva e acompanhar o crescimento da criança ou do adolescente.

Os pais devem aproveitar situações do dia a dia para esclarecer dúvidas sobre sexualidade, respondendo de forma adequada à idade. Quando o adolescente ou jovem não coloca perguntas, pode significar insegurança ou receio de julgamento. Por isso é muito importante, estar sempre disponível e aberto ao diálogo quando o tema surge, alerta a médica num artigo de opinião.

A forma como a sexualidade é vivida e compreendida muda ao longo do processo de desenvolvimento. Conhecer estas etapas ajuda os pais a ajustar a linguagem, as expectativas e a profundidade das conversas:

• Primeiros anos de vida

O recém-nascido manifesta prazer através do toque, do conforto e da satisfação das suas necessidades básicas. Um bebé de cerca de nove meses pode apresentar comportamentos de autoexploração do corpo, incluindo dos órgãos genitais, como parte natural do desenvolvimento.

A partir dos dois anos, a criança começa a autoidentificar-se no que diz respeito à identidade sexual. Deve poder fazê-lo sem imposições, seja nas brincadeiras, nas cores ou nos papéis associados ao género. A sexualidade está presente desde o nascimento, de forma natural e progressiva.

• Entre os 3 e os 6 anos

Nesta fase, surge maior curiosidade pelo próprio corpo e pelo corpo do outro. A manipulação dos genitais por prazer pode ocorrer e não deve ser reprimida ou censurada. Cabe aos pais contextualizar o momento e o espaço, e explicar os limites de forma tranquila.

Entre os 3 e os 6 anos, ocorre também a chamada fase edipiana, em que a criança estabelece relações de maior proximidade emocional com os pais. Este período é uma oportunidade para reforçar limites, intimidade e segurança emocional.

• Dos 6 aos 10 anos

A entrada na escola traz novas curiosidades e algum pudor relativamente à nudez e à exposição do corpo. Este pudor deve ser respeitado e pode servir de base para conversar sobre privacidade, respeito e limites.

Nesta fase surgem também as primeiras amizades mais próximas e os primeiros “namoros”. Recorrer a livros, programas de televisão ou situações do dia a dia podem ser bons pontos de partida para falar sobre as diferenças, afetos e respeito pelo outro, que são elementos fundamentais na prevenção do abuso sexual.

• Adolescência

A adolescência, entre os 10 e os 19 anos, caracteriza-se por profundas transformações físicas, emocionais e sociais. Surgem dúvidas relacionadas com o corpo, a identidade, o desejo e os relacionamentos.

É também uma fase de maior distanciamento dos pais, o que pode dificultar a comunicação. Ainda assim, é um momento-chave para abordar temas como contraceção, infeções sexualmente transmissíveis (ISTs), consentimento e responsabilidade.

Estas conversas são fundamentais para ajudar o adolescente a:

1. Obter informações precisas sobre o desenvolvimento e saúde sexual;

2. Desenvolver atitudes saudáveis sobre a sexualidade;

3. Tomar melhores decisões sobre o comportamento sexual;

4. Reduzir o risco de ISTs e de uma gravidez não planeada.

No mesmo apontamento, Bárbara Mota deixa algumas dicas para que os pais abordem naturalmente o tema da sexualidade com os filhos:

1. Aproveite o momento certo

Qualquer situação do dia a dia pode ser um ponto de partida para falar de sexualidade e não tem de esgotar o tema numa só vez: encare-o como um diálogo contínuo, que se retoma quando fizer sentido.

Se não se sentir preparado, é preferível adiar a conversa, dando tempo para refletir, preparar-se e recolher informação, do que evitá-la.

2. Esteja disponível para ouvir

Saber ouvir sem criticar ou julgar é fundamental. O jovem deve sentir que pode voltar a falar sempre que precisar. Algumas dicas importantes:

• Antes da conversa, avalie o seu próprio desconforto e identifique possíveis preconceitos;

• Utilize linguagem neutra e inclusiva;

• Procure normalizar o tema: trate a sexualidade como parte natural da saúde e do desenvolvimento;

• Faça perguntas abertas. Se necessário, reformule-as e explique por que as está a fazer;

• Valide os sentimentos do adolescente;

• Garanta privacidade e confiança.

3. Verdade e rigor

O que explicar deve ser factual e ajustado à idade. Usar a terminologia correta, mesmo que cause algum desconforto inicial, ajuda a evitar equívocos e mitos, sobretudo face à influência das redes sociais e dos pares.

Ofereça informação credível e fidedigna. Se não souber responder, diga-o com transparência e proponha procurar a resposta em conjunto.

4. Educar para os afetos

A sexualidade não é apenas biológica. Os afetos devem estar sempre presentes na conversa para ajudar o jovem a compreender que a intimidade, o respeito e cuidado são partes essenciais de qualquer relação.

5. Naturalidade e tato

A descontração e o humor podem facilitar a comunicação. Muitas vezes, são os próprios adolescentes que indicam até onde querem ir na conversa.

6. Empoderar

Tente ensinar ao adolescente estratégias que promovam a assertividade, o controlo e a rejeição de avanços sexuais indesejados, bem como meios para interromper qualquer atividade sexual não consentida.

7. Amor e respeito

Cada jovem tem o seu ritmo. Mostrar amor é também respeitar a individualidade, sem impor visões pessoais ou respostas fechadas.

Exemplos de perguntas que pode fazer:

1. Já estiveste numa relação amorosa? Queres contar-me um pouco sobre as pessoas com quem te relacionaste?

2. Como te sentes em relação ao teu género?

3. Já te sentiste pressionado(a) a fazer alguma coisa?

4. Alguma das tuas relações já envolveu algum tipo de sexualidade? Se sim, sentiste-te seguro(a) e confortável?

5. Que métodos de proteção ou contraceção conheces e utilizas? Estás satisfeito(a) com esse método?

6. Tens dúvidas ou questões sobre o teu corpo ou sobre a sexualidade?

A médica adverte também para o que os pais não devem fazer:

1. Não assumir nem rotular identidades ou orientações.

2. Não corrigir, ridicularizar ou desvalorizar.

3. Não fazer perguntas invasivas sobre o corpo.

4. Não transformar a conversa num interrogatório nem a monopolizar. Escute ativamente o adolescente.

5. Não moralizar nem culpabilizar.

Falar de sexualidade com os filhos é um processo contínuo, feito de pequenas conversas, escuta ativa e confiança mútua. Quando abordado com naturalidade, respeito e informação adequada à idade, este diálogo torna-se uma ferramenta poderosa para promover escolhas conscientes, relações saudáveis e bem-estar emocional, realça a médica dfo Grupo Lusíadas.