Num apontamento no Blog Lusíadas Saúde, a médica diz que «a adolescência é uma espécie de segundo nascimento, uma época em que o adolescente já não é uma criança nem ainda é um adulto, mas partilha de alguns dos desafios, privilégios e expetativas de ambas as épocas».
No passado, esta fase era entendida como o período de transição entre a infância e a idade adulta, mas atualmente é considerada como um período de múltiplas transições que se assemelha a um segundo nascimento, dando lugar a alterações profundas que devem ser interpretadas, acolhidas e apoiadas para que decorra com a maior normalidade possível.
A puberdade é vista como o início da adolescência, e cada vez mais esta é precoce. Apesar de alguns aspetos da adolescência decorrerem mais precocemente, «o final da adolescência é cada vez mais tardio».
A adolescência é o período por excelência da luta pela individuação e autonomia, sendo impossível ter uma plena compreensão do desenvolvimento do adolescente separado dos seus contextos biológico, familiar, comunitário, cultural e histórico.
As alterações emocionais e comportamentais na adolescência e as perturbações mentais que ocorrem nesta fase evolutiva são, pela sua frequência, impacto social e dificuldade de tratamento, «um problema importante para os Serviços de Saúde Mental. É, portanto, essencial uma política de prevenção e informação desde a infância de forma a evitar algumas condições que levam à elevada existência de psicopatologia nesta faixa etária», alerta a pedopsiquiatra no mesmo apontamento.
A palavra “adolescência” deriva do latim adolescere (crescer). A palavra “adulto” deriva do mesmo verbo (adultus, ter crescido). Sendo assim, a adolescência é o período de crescer e tornar-se adulto; é um processo de desenvolvimento que, segundo a Organização Mundial da Saúde, decorre entre os 10 e os 19 anos.
De acordo com Neide Urbano, os principais motivos que levam os jovens à consulta de pedopsiquiatria são:
• Problemas de comportamento
• Comportamentos autolesivos (com ou sem ideias de morte)
• Ideias de suicídio
• Problemas de afetos (fundamentalmente sintomas depressivos)
• Ansiedade
• Problemas de manutenção da atenção
• Problemas de aprendizagem
Os principais diagnósticos realizados na faixa etária da adolescência são perturbações do comportamento, perturbações depressivas e perturbações de ansiedade. Outras problemáticas que têm o seu pico na adolescência são as perturbações relacionadas com o uso de substâncias, esquizofrenia e outras perturbações psicóticas e perturbações do comportamento alimentar (anorexia nervosa e bulimia nervosa), resume a especialista no mesmo apontamento da Lusíadas Saúde.
A prevenção começa com a consciencialização da existência da doença e com a necessidade de estar alerta e compreender os primeiros sinais e sintomas da doença mental. «Os pais e professores assumem um papel fundamental na formação de competências dos adolescentes para que consigam lidar com os desafios do dia a dia», alerta Neide Urbano.
A promoção da saúde mental e do bem-estar ajuda os adolescentes a aumentar a resiliência para melhor lidarem com adversidades e situações de conflito, e também traz benefícios para a economia e sociedade: com adultos saudáveis a contribuir para o desenvolvimento da atividade em termos laborais, familiares, comunitários e sociais.
A prevenção na área da saúde mental deveria começar antes da conceção de uma criança, sendo essencial que, desde cedo, pais e educadores promovam ambientes de segurança, potenciem espaço para a opinião da criança e promovam o espírito crítico, recomenda Neide Urbano.
Segundo os entendidos em comportamento humano, promover a saúde mental na adolescência exige uma abordagem integrada que envolva estes aspetos essenciais:
- Escuta ativa e validação dos sentimentos do jovem sem julgamentos;
- Promover hábitos saudáveis, como horários de sono regulares, atividade física e limites claros para o uso de ecrãs, e garantir ajuda profissional quando necessário.
- Diálogo aberto e empático: crie um ambiente onde o adolescente se sinta seguro para expressar emoções.
- Evite minimizar as suas angústias e mostre curiosidade genuína sobre o seu dia a dia.
- Educação emocional: ajude o jovem a identificar, nomear e regular os seus sentimentos. O autoconhecimento é a base para lidar com frustrações e com a pressão dos colegas, que é muito forte nesta fase de desenvolvimento.
Esteja atento a mudanças drásticas de comportamento, queda no rendimento escolar ou isolamento persistente. Nesses casos, procure profissionais de saúde mental (psicólogos ou psiquiatras), recomendam os especialistas, reforçando a importância do apoio e vigilância dos pais em todo o processo.