Dificilmente encontramos alguém que não se queixe de ter, ou de já ter vivenciado, a sensação de um pensamento “que não lhe sai da cabeça”. É um pensamento negativo e que gera angústia.
Tendo por base um apontamento do Instituto de Psiquiatria do Paraná – Brasil, os especialistas explicam as causas deste tipo de pensamentos e ensinam a lidar com eles de modo a ter mais qualidade de vida e saúde mental.
Os pensamentos ruminativos caracterizam-se por serem repetitivos e por gerarem mal-estar. De uma forma simplista, são aqueles pensamentos que parecem não nos sair da cabeça por muito que tentemos afastá-los, o que popularmente se descreve como “remoer”.
É também comum que, quando pensamos em algo que, a nossa mente procure mais e mais elementos que ajudem a “comprovar” que realmente isso é real ou verdadeiro, daí ser ainda mais difícil a tarefa de nos libertarmos desse pensamento.
De acordo com os psiquiatras, a natureza dos pensamentos ruminativos é obsessiva, ou seja, «ocorrem de forma involuntária e a pessoa pode sentir que não tem controlo sobre eles». Naturalmente que, à primeira vista, não podemos fazer nada para reverter esta situação que faz parte da própria natureza humana; no entanto, é preciso ter em conta que essa ruminação mental tem as seguintes funções:
- Tentar entender melhor uma situação
Para que a pessoa se sinta mais segura e preparada para um momento futuro. Contudo, não existe uma relação direta entre pensar muito na mesma coisa e mudar um comportamento na vida real; isto porque esses pensamentos só existem na nossa cabeça e, na maioria das vezes, não se aplicam à realidade, alertam os especialistas.
- Motivar-se
Para algumas pessoas, ruminar sobre os seus defeitos e limitações serve como um pretexto para desenvolver motivação e para reagir a esses impedimentos. Desse modo, ao tentarem contornar os limites que possuem, sentem-se mais preparadas para enfrentar um desafio.
- Planear uma situação com antecedência
Se, por um lado, planear por antecipação ajuda a melhorar o desempenho perante uma situação nova ou desafiante, por outro, pode desencadear sentimentos de angústia e, em muitos casos, não ser eficaz no que respeita à melhor preparação para enfrentar o que se pretende.
- Evitar comportamentos indesejados
Embora a ruminação seja um comportamento indesejado em si, às vezes surge como forma de evitar um outro comportamento ainda mais indesejado. Uma pessoa que tem medo de ser rude ou impulsiva, por exemplo, pode recordar cenários em que não esteve à altura da ocasião e melhorar a sua postura em termos mentais para que depois os possa traduzir em comportamentos.
Também é comum que, uma pessoa que sinalize erros na educação parental que recebeu esteja permanentemente preocupada e a pensar na melhor forma de não os imitar. Esta situação, além de dolorosa, torna-se exaustiva pela ruminação que desencadeia, alertam os especialistas na área da psiquiatria.
- Lidar com o tédio
Às vezes, a ruminação tem como propósito fugir do tédio, pelo que é comum que a pessoa “sonhe acordada” e que viva boas memórias numa imaginação profunda.
No entanto, esse tipo de ruminação pode ter consequências prejudiciais, como reduzir a atenção, gastar tempo desnecessário, uma vez que são sonhos e não concretizações, criar a ilusão de que se está a viver algo que, na verdade, não existe, reduzir a produtividade e a disponibilidade para desfrutar de tempo de lazer e de contacto com outras pessoas, entre outras implicações menos positivas.
- Evitar o confronto com a realidade
A pessoa que se perde em ruminações mentais, acredita que está a resolver os seus problemas quando, na realidade, isso só está a acontecer na sua mente, não no contexto real e prático. Perde-se nos seus pensamentos e acaba por pouco reagir ao seu quotidiano. Está exausta de tanto pensar, mas faz pouco em termos concretos.
- Antecipar respostas negativas
Pode funcionar como uma preparação para quando algo de negativo surgir, dando uma sensação de controlo e segurança em cenários incertos.
- Sensação de controlo dos sentimentos
A ruminação também pode ser usada como uma técnica de regulação emocional. A pessoa pode ter a sensação de conseguir controlar as suas emoções ao ruminar sobre um assunto e trocar uma emoção desagradável por outra; no entanto, é apenas uma sensação que terá de ser confrontada quando tiver de deparar-se com a situação real, o que dá lugar a um aumento da ruminação e acarreta muita angústia e mal-estar. Esta técnica ainda agrava mais a sensação de dúvida, faz com que a pessoa não se liberte do pensamento e que perca tanta energia que, quando a situação real acontecer, terá menos capacidade de resposta, alertam os entendidos.
Com isso, é frequente que o resultado da ruminação seja uma sensação ainda pior, o que leva a pessoa a ruminar ainda mais. Trata-se de um ciclo vicioso.
- Gerar racionalizações ou desculpas
Ao ter pensamentos ruminativos, uma pessoa pode racionalizar uma questão e arranjar desculpas para não ter de lidar com o problema na vida real.
Trata-se de uma forma de enganar-se a si mesma assumindo que, ao pensar sobre o problema, já está a fazer algo para resolvê-lo.
O que leva a que muitas pessoas tenham mais pensamentos ruminativos:
Acreditar que, ao pensar bastante no problema, poderá chegar a alguma conclusão que possa resolvê-lo;
Ter um histórico de traumas físicos ou emocionais;
Histórico recente de eventos stressores, como o fim de uma relação, a perda de um emprego, uma mudança súbita, entre outros;
Estar muito exposto ao stress no dia a dia e vivenciar a sensação de incerteza e falta de controlo;
Sofrer de um transtorno mental como depressão ou ansiedade;
Apresentar dificuldades na regulação emocional;
Traços de personalidade como perfeccionismo, neuroticismo, entre outros.
O Instituto de Psiquiatria do Paraná destaca que, os pensamentos ruminativos são bastante comuns na população em geral, ou seja, não é necessário que uma pessoa tenha um transtorno mental.
Ainda assim, existem algumas condições que podem tornar os pensamentos ruminativos mais frequentes. São elas:
transtorno obsessivo-compulsivo (TOC);
depressão;
transtorno de ansiedade generalizada (TAG);
transtorno de ansiedade social;
transtorno de stress pós-traumático (TEPT);
transtorno de défice de atenção e hiperatividade (TDAH);
transtornos de uso de substâncias.
Também há pessoas que apresentam um traço de personalidade designado por neuroticismo, o que dá lugar a que vivenciem mais emoções negativas como: tristeza, stress, raiva, ansiedade, excesso de preocupações, entre outras.
Por fim, os especialistas clarificam que a ruminação mental está relacionada com os pensamentos negativos e repetitivos, enquanto as preocupações centram-se no medo e na incerteza.
Além disso, a ruminação refere-se a problemas do passado ou presentes. Já a preocupação tem como foco as questões futuras, mas, em qualquer dos casos, ambas revestem-se de muita angústia e mal-estar. E, por mais que possa parecer, a ruminação não ajuda a processar as emoções, já que, para que tal aconteça, «é fundamental que identifiquemos o que estamos a sentir e permitamos que essa emoção se expresse para que depois a possamos integrar e aprender com ela».
Dicas para lidar com a ruminação:
Realizar atividades que não tenham a ver com o tema em causa para que possa distrair-se. Se puder, conviva com uma boa companhia para que sinta mais leveza;
A prática de Mindfulness ajuda a focar a mente no momento presente, pelo que ajuda a afastar a ruminação que se refere ao passado;
Tente recordar momentos em que conseguiu ultrapassar as suas dificuldades e problemas para que se sinta mais confortável e consiga ver a realidade noutra perspetiva;
Praticar exercício físico ajuda a reduzir o stress, a ansiedade e os pensamentos ruminativos;
Analisar os problemas em pequenas etapas ajuda a tomar consciência de que, afinal, apesar de ser constrangedor, o problema não é tão grande como poderia parecer, pelo que se torna mais acessível enfrentá-lo e resolvê-lo;
Admitir que nem todos os problemas têm uma solução também ajuda a que aprenda a lidar melhor com a aceitação e a procurar um alívio;
Nem todos os problemas dependem de si ou de uma mudança, pelo que também se torna essencial aprender a criar alternativas e a incidir mais naquilo que está sob o nosso controlo; o resto precisará de outras intervenções e, em muitos casos, também há situações em que temos mesmo de aceitar. Mudar de ambiente também ajuda a desligar-se do pensamento incomodativo, tal como fazer algo diferente com outras pessoas pode ajudar, aconselham os psiquiatras do Instituto do Paraná, reforçando a importância de pedir apoio sempre que necessário e sugerindo que reforce a autoestima, o autoconhecimento e a autoconfiança em nome do bem-estar físico, mental e da qualidade de vida.