Sociedade

Covid.19: Trabalhadores das profissões essenciais protestaram em Faro

Os sindicatos de trabalhadores de profissões essenciais, de diferentes setores, em conjunto com a União dos Sindicatos do Algarve/CGTP-IN, agendaram para esta manhã, uma ação de protesto junto ao hospital de Faro, integrada na Semana da Igualdade da CGTP-IN e da Comissão para a Igualdade Mulheres e Homens (CIMH)/CGTP-IN, este ano sob o lema "Defender a Saúde, Dignificar o Trabalho, Avançar na Igualdade".

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Segundo as estruturas sindicais, o Governo no decurso da pandemia, tem vindo a determinar uma série de obrigações a trabalhadores que designou de essenciais, "mas não só não resolveu os problemas destes trabalhadores, como em alguns casos até os agravou". 
 
Denunciam que os serviços de saúde, lares, assistência social, limpeza, transportes, comércio, entre outros, sofrem as consequências do aumento da carga de trabalho e desregulação de horários, dificuldade na conciliação entre o trabalho e a vida pessoal, pressão psicológica, precariedade e até desemprego.
 
Ao Algarve Primeiro a Coordenadora Nacional da CIMH/CGTP-IN Fátima Messias, que esteve no protesto em Faro, referiu que a iniciativa está relacionada com o assinalar do Dia Internacional da Mulher, que decorre em todo o país, até 12 de março.
 
As ações desenrolam-se na rua, «mas também muito próximo dos locais de trabalho», o objetivo é trazer para a opinião pública os problemas principais que afetam as mulheres trabalhadoras, «dentro das desigualdades que existem».
 
Para a coordenadora da comissão, além de ganharem em média menos 14% em relação aos homens, «trabalham mais horas, têm mais dificuldades de conciliação, estão em teletrabalho com crianças em casa, (o que levou à alteração da legislação), devido aos exercícios de maternidade são prejudicadas nos locais de trabalho e na progressão, além de serem vítimas de assédio laboral, sendo a maioria dos trabalhadores com doenças profissionais».        
 
Fátima Messias fez questão de enfatizar que todos estes problemas, agravaram-se com a pandemia, «são setores fortemente de mão-de-obra feminina, como no caso da saúde ou do setor social, que chegaram a um ritmo de exaustão total. No setor do comércio houve grande desregulamentação dos horários», referiu. 
 
A responsável criticou que o Governo tenha tomado «medidas tardias e insuficientes», dando como exemplo o teletrabalho: «as escolas fecharam no final de janeiro, denunciámos um caso de uma trabalhadora de um call center que estava com crianças em casa e que não conseguia atender permanentemente as chamadas, em que a situação só foi alterada em finais de fevereiro, sem efeitos retroativos, com centenas de mulheres, já para não dizer milhares, que ficaram sem qualquer fonte de rendimento, porque foram obrigadas a deixar o teletrabalho para cuidar dos filhos. Lamento que essa situação nunca tenha sido recuperada, sendo que os pagamentos a 100%, só vieram mais tarde nos lay-off's. Posso dizer que os estudos mostram que as mulheres perderam 16% dos seus rendimentos em média em 2020, que em cima de salários baixos veja-se a pobreza que temos aí». 
 
A Coordenadora da Comissão para a Igualdade Mulheres e Homens, defende a aposta no aparelho produtivo no emprego, forte investimento público, criação de emprego de qualidade, redução do horário de trabalho e condições dignas nos locais de trabalho sem violência e sem assédio.    
 
Também ao nosso jornal António Goulart, presidente da União de Sindicatos do Algarve (USAL), disse que os problemas atuais do mundo laboral que se agravaram com a pandemia não se restringem só à função pública, mas também ao setor privado. «É óbvio que há problemas estruturais que já vinham de antes, nomeadamente os baixos salários ou a precariedade laboral e aqui no Algarve, nós vimos logo em março de 2020 com a chegada da pandemia, empresas a descartarem-se de trabalhadores com uma rapidez enorme fazendo o desemprego disparar, com a região a ser a mais prejudicada no país porque afunilou o seu modelo de desenvolvimento económico e social num único setor de atividade: o turismo, assente numa matriz de baixos salários e precariedade laboral. Os dados dizem que o Algarve é a região com mais precariedade laboral, vemos que a média salarial na região está entre 12 e 14% abaixo da média nacional que já de si é baixa, portanto, a pandemia veio trazer a desculpa para muitas entidades patronais reduzirem os direitos dos trabalhadores».
 
Sobre a questão do lay-off, o representante da USAL, lembrou que em 2020 não foram pagos a totalidade dos rendimentos aos trabalhadores abrangidos, situação revertida em 2021, contudo, diz que paira sobre estes trabalhadores muita incerteza, «não sabem se as empresas onde trabalham, vão voltar a abrir portas ou se estão previstos despedimentos coletivos. O que tiro desta crise económica e social é que há um fio condutor com outras crises que já aconteceram no passado. A crise chega ao Algarve muito mais rapidamente e com muito mais violência do que no resto do país e isso tem a ver com o desenvolvimento económico e social da região, com a estrutura da economia regional sujeita a enormes flutuações que rapidamente vai desembocar em situações de pobreza e miséria», explicou.
 
António Goulart lembrou que desde 2007, têm reivindicado a alteração da estrutura económica da região, «é bom clarificar que o turismo é importantíssimo como é evidente, mas é preciso diversificar outros setores de atividade, sobretudo setores produtivos na região, isto é, setores que tenham a capacidade de qualificar o emprego, mas para isso é necessário haver uma determinação política forte, é necessário haver fundos. Considero que os 300 milhões de euros da Europa para alterar o perfil da região, anunciados pelo Presidente da CCDR é uma "gota de água no oceano", para aquilo que a região precisa. É preciso mais dinheiro e força política para além da que tem existido até hoje, não há nenhuma região no mundo que viva só de uma atividade e o Algarve já teve outros setores produtivos, mas foi perdendo-os por falta de vontade e empenho político e também porque o turismo foi ocupando o espaço que existia», considerou.