Sociedade

Covid.19: A saga de Dinis Faísca que durou 48 dias

O Chefe de Gabinete do Presidente da Câmara Municipal de Castro Marim, foi apanhado de surpresa pela covid.19.

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Foi uma saga que durou 48 dias, e que jamais esquecerá, um dos momentos mais delicados da sua vida. Com 47 anos e sem problemas de saúde, Dinis Faísca confessou ao Algarve Primeiro que aliviava o seu medo enquanto esteve internado, rezando todos os dias. 
 
Sendo um homem de fé, e com formação em teologia e psicologia, reflete que começou a dar valor «às coisas simples da vida, que normalmente por estarmos ocupados nem damos por vezes a devida atenção, mas essa foi uma das grandes lições que aprendi nos tempos em que lutei contra o vírus, valorizar ainda mais a minha família, os meus amigos e tudo que nos passa ao lado, quando não temos a vida em risco».
 
A situação aconteceu, após uma enteada que está a estudar em Lisboa, ter vindo para o Algarve em dezembro, quando as universidades encerraram devido à pandemia, tendo sido infetada nessa fase. No dia 30, foi dado o sinal de alerta, quando a jovem foi diagnosticada com covid.19. «A partir daí ficámos confinados, tentámos ter precauções, limitar espaços, usar máscara, mas não foi suficiente», contou.
 
Depois a situação piorou em poucos dias, com Dinis Faísca a ter tosse seca persistente e a mulher febre e cansaço. No dia 4 de janeiro, toda a família fez o teste tendo dado positivo. Nesta fase, receberam o apoio de amigos e familiares que faziam as compras e levavam a comida já confecionada, «todos estávamos numa situação debilitada e nem tínhamos condições para cozinhar». 
 
Mas para que se perceba como o vírus é volátil, passados dez dias sobre o primeiro teste, Dinis Faísca estava assintomático e chegou a ter alta da covid no dia 14 de janeiro. Foi nesse dia que foi buscar a esposa ao hospital, porque teve alta na sequência de uma pneumonia bilateral, também relacionada com a covid. «Era uma dia frio, fui buscar a minha mulher ao hospital e estive lá cerca de 1 hora, coincidência ou não, a partir daí, voltei a piorar e começaram a repetir-se os sintomas que já tinha tido, nomeadamente, tosse seca muito compulsiva, gerando falta de ar, motivo que me levou ao Centro de Saúde de Vila Real de St. António numa manhã, onde me disseram que tinha de fazer um raio-x mas que só seria possível fazê-lo no Centro de Saúde de Tavira, a partir das 13h00, e decidi ir ao hospital de Faro no dia 18».
 
Já no hospital, foi feito um teste com recurso ao oxímetro para saber os níveis de oxigénio no sangue, «e estava com níveis próximos do normal, entre 94-95». Entretanto, foi enviado para casa com medicação e no regresso passou pelo Centro de Saúde de Tavira, onde fez um raio-x aos pulmões que não detetou pneumonia, mas um pequeno derrame no pulmão do lado direito. Nessa consulta o médico que o atendeu referiu que ou ia às urgências do Hospital de Faro ou para casa com medicação, medindo os níveis de oxigénio, caso registasse níveis abaixo de 92, deveria ir ao hospital. 
 
Dinis Faísca optou por ficar em casa, «com essa medicação numa primeira fase melhorei, mas na madrugada de 23 de janeiro, comecei a piorar e com os níveis de oxigénio no sangue abaixo dos 92, por volta dos "84-86", regressei às urgências do hospital, numa fase em que já nem queria ir, porque estava cansado de andar de um lado para o outro, mas graças à minha família e amigos, convenceram-me que era importante voltar à unidade hospitalar». 
 
Já no hospital, contou-nos que foi feito novo raio-x que não acusou o derrame no pulmão, e esteve perto de receber alta, contudo, devido à insistência da família para o problema no pulmão detetado em Tavira, foi feito um Angio TAC, cujo diagnóstico não foi pneumonia caraterística de doentes covid, mas tromboembolismo pulmonar, [obstrução de uma das artérias pulmonares, impedindo desta forma a normal circulação sanguínea], «tinham-se formado coágulos no meu sangue que estavam nos dois pulmões, consequência da covid».
 
Nessa dia já não saiu do hospital, ficou internado, «posso dizer que fui tratado com um cuidado extremo, mesmo com os profissionais muito cansados, explicavam sempre tudo muito bem sobre a doença e como seriam os próximos passos, mas felizmente nunca cheguei a entrar na Unidade de Cuidados Intensivos, mas cheguei a ver alguns colegas de internamento a precisarem desses cuidados». E nessa circunstância, confidenciou-nos que sentiu medo, tendo-se suportado na fé, rezando todos os dias, «foi nessas rezas que acreditava que iria sair dali e para me tranquilizar no meio daquela agitação que me envolvia». No meio de tanta incerteza, recuperou, e hoje voltou ao trabalho. 
 
Uma das conclusões que retira desta experiência, «é recentrar a família e os amigos na minha vida, porque estamos atarefados, falta de tempo, paciência, ou outras circunstâncias que não valorizamos esse lado, e lembro que no meio disto tudo, só acabei por ir às urgências por força dos amigos e dos familiares, achei que se ficasse em casa iria curar-me o que poderia ser fatal», desabafou. 
 
Deixa um conselho, «não desvalorizar a covid e pensar que só acontece aos outros, aos mais idosos ou a quem tem doenças associadas, porque esta doença age de uma forma quase aleatória, pelo que aconselho muita cautela, protegendo-nos, protegendo os outros, lembro, cuidado, cuidado, cuidado».