Segundo Cristiane Lang, psicóloga clínica, a vergonha tanto pode servir um propósito social ao ajudar a regular comportamentos dentro de um grupo, como também pode ser um obstáculo significativo ao crescimento pessoal e profissional.
Num apontamento no sítio Campo Grande News, a especialista clarifica que a vergonha é uma resposta emocional que surge quando uma pessoa sente que os seus pensamentos, comportamentos ou características pessoais são inadequados ou condenáveis. É uma emoção social que nos alerta para a perceção dos outros sobre nós, muitas vezes levando a sentirmo-nos indignos, humilhados ou desconectados. Ao contrário da culpa, que está relacionada com uma ação específica, a vergonha está mais ligada à identidade pessoal — é a sensação de que "está algo errado em mim" em vez de "eu fiz alguma coisa errada?”
Cristiane Lang acrescenta no mesmo artigo que «a vergonha pode corroer a autoestima, fazendo com que as pessoas se sintam constantemente inadequadas e indignas de amor ou sucesso. Essa baixa autoestima pode impedir que arrisquem novas oportunidades ou que se exponham a situações de aprendizagem e crescimento».
O medo de ser julgado ou ridicularizado pode paralisar uma pessoa, levando a que não arrisque, que não inicie algo ou que não concretize um projeto de vida, por exemplo. As pessoas com uma vergonha desproporcional tendem a permanecer na zona de conforto e a evitarem procurar novos desafios e oportunidades devido a essa paralisação emocional que não as deixa avançar e enfrentar a vida com coragem.
A vergonha muitas vezes leva ao isolamento, pois as pessoas podem evitar interações sociais para não se exporem ao risco de humilhação. Esse isolamento impede a formação de redes de apoio e oportunidades de crescimento que surgem através das interações sociais, completa Cristiane Lang no sítio Campo Grande News.
«Sentimentos persistentes de vergonha podem levar à autossabotagem. As pessoas podem, inconscientemente, criar obstáculos para si mesmas ou abandonar metas e projetos por medo de falhar e sentir vergonha», não tem necessariamente que ser por impedimento de alguém, mas sim pelos seus próprios obstáculos, sublinha a autora lançando pistas para superar a vergonha e promover o crescimento:
A autocompaixão envolve tratar-se com a mesma gentileza e compreensão que ofereceria a um amigo. Reconhecer que todos cometem erros e que a imperfeição é parte da condição humana pode aliviar a pressão da vergonha e abrir caminho para o crescimento, destaca a mesma psicóloga.
Ser vulnerável e expressar sentimentos de vergonha a pessoas de confiança pode ajudar a reduzir o seu poder. Partilhar experiências pode revelar que não estamos sozinhos com os nossos sentimentos, promovendo a aceitação e o apoio mútuo.
Muitas vezes, a vergonha está ligada a padrões irrealistas que colocamos sobre nós mesmos. Redefinir esses padrões, aceitando a possibilidade de falhas e erros como parte do processo de aprendizagem, pode aliviar a pressão e encorajar a procura de novos desafios.
Conhecer mais sobre as nossas emoções e desenvolver inteligência emocional pode ajudar a reconhecer e a gerir sentimentos de vergonha de maneira mais saudável. Ferramentas de autorreflexão, como a meditação e o diário, podem ser úteis nesse processo, exemplifica Cristiane Lang no Campo Grande News.
Em casos em que a vergonha é debilitante, torna-se valioso procurar apoio psicológico, na medida em que estes profissionais de saúde mental reúnem técnicas específicas que nos podem ajudar a lidar com a vergonha de forma construtiva.
Por fim, a especialista realça que a vergonha é uma emoção poderosa que pode impedir significativamente o crescimento pessoal e profissional. No entanto, ao desenvolver estratégias para lidar com a vergonha e cultivar um ambiente de autocompaixão e aceitação, é possível transformar essa emoção num catalisador para o crescimento.
«Superar a vergonha não é um processo fácil, mas é um passo crucial para alcançar o potencial pleno e viver uma vida mais realizada e autêntica», sublinha.
No livro: “Cuida da tua criança interior”, Nicole LePera faz uma abordagem aprofundada da vergonha que nasce connosco e que pode perseguir-nos pela vida fora se não a trabalharmos. Para a autora, o primeiro passo é tomar consciência da vergonha e daquilo pelo qual nos envergonhamos e depois aprender a mudar o nosso sistema nervoso de modo que as ações que praticamos diariamente deixem de ir ao encontro dos comportamentos que adotamos no passado. Nicole LePera assegura que é possível reduzir o impacto da vergonha na nossa vida, apesar de ser um processo gradual e, no seu livro, deixa um conjunto de técnicas que também podem ajudar a ultrapassar essa limitação.