Economia

Algarve gera 811 milhões na agricultura mas "perde" metade do valor

Foto - Depositphotos  
A agricultura no Algarve gerou um Valor Acrescentado Bruto (VAB) de 811 milhões de euros (ME) em 2023, mas apenas 423ME desse montante ficaram retidos na economia regional, revelou um estudo hoje apresentado pela federação dos agricultores algarvios.

PUB

O documento que analisa o impacto socioeconómico do setor primário no Algarve, destaca a importância estratégica da região, mas aponta para uma "fuga de valor" considerável para fora do território algarvio, foi apresentado em São Bartolomeu de Messines.

O estudo promovido pela Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) do Algarve em conjunto com a Federação da Agricultura Algarvia (Fedagri), demonstra que o setor se mantém como o segundo mais importante da economia a seguir ao turismo.

“Este estudo mostra que a atividade agrícola gerou um impacto total de 811ME no VAB nacional, representando 30.936 postos de trabalho”, disse à Lusa o presidente da CCDR/Algarve.

De acordo com José Apolinário, do valor global de 2023, apenas 423ME ficaram na região, “com impacto médio anual de receita fiscal” de 367ME na Taxa Social Única (TSU), de 68ME no Imposto sobre o Rendimento das Pessoas Singulares (IRS) e de 57ME no Imposto sobre o Rendimento de Pessoas Coletivas (IRC).

Segundo o presidente da entidade regional, o documento pretende ser um ponto de referência em que o setor agrícola se reveja, no sentido de valorizar a importância económica e social da agricultura da região”.

A agricultura algarvia continua a ser um dos principais motores exportadores da região, com foco nos citrinos (laranja, abacate, limão) e pequenos frutos e frutos secos.

Segundo os autores do estudo, a EY Parthenon, a diferença entre o valor gerado e o valor que permanece na região justifica-se, em parte, pela dependência de serviços externos, logística e de distribuição.

O estudo também alerta para os desafios estruturais que podem condicionar estes números em anos vindouros, com especial enfoque para a gestão hídrica e o acordo União Europeia/Mercosul.

Para os autores do documento, o acordo livre de comércio entre a União Europeia e os países do Mercosul (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai), pode afetar as exportações algarvias, devido à redução de “tarifas e barreiras comerciais”, com a definição de regras comuns de comércio.

A redução tarifária e a entrada de grandes volumes do Mercosul, “tendem a provocar uma redução nos preços ao produtor, sobretudo no curto prazo”, aponta o documento.

Assim, alerta para o “risco elevado” para setores agrícolas sensíveis em Portugal, nomeadamente citrinos e abacate, considerados estratégicos para o Algarve, que são “altamente dependentes do preço”.

As conclusões apontam ainda para a importância dos investimentos hídricos no Algarve, previstos na estratégia nacional do programa “Água que Une”, projetando para 2040 um aumento de produção nos frutos tropicais em 25% e de 86% nos frutos pequenos de baga.

Neste cenário, o estudo prevê que o VAB agrícola na região aumente para 992ME (+22%, comparativamente com 2023), gerando uma receita fiscal de 286ME (+20%).

O presidente da Fedagri, Afonso Nascimento, disse à Lusa que o estudo “serve essencialmente para os agricultores fazerem determinadas imposições perante a administração pública”.

Segundo o representante dos produtores agrícolas algarvios, entre as reivindicações “está o alargamento da superfície de cultivo e condições para se investir e desenvolver ainda mais a atividade”.

“Não queremos dinheiro fácil para sobreviver. Só queremos é que nos deem condições para investir”, argumentou.

A laranja continua a ser a principal cultura, com uma superfície agrícola de 16.284 hectares (47,3%), seguida dos frutos de casca rija (5.071 - 14,6%), frutos secos (2.992 – 8,6%) e dos frutos subtropicais, onde se inclui o abacate, com uma área de 2,5 hectares (7,2%).