De acordo com a edição de 2026 do estudo "Acessibilidade à Habitação" da Century 21 Portugal, adquirir uma habitação de 90 m² é "inacessível" (exige mais de 50% do rendimento) em todos os concelhos analisados, com taxas de esforço entre 57% e 87%. No arrendamento, a situação é ainda mais extrema: todas as cidades da região são inacessíveis, com taxas que atingem os 96% do rendimento disponível de uma família média local.
"O Algarve é o exemplo mais claro do descolamento total entre o mercado imobiliário e a realidade económica das famílias residentes. Com rendimentos significativamente mais baixos do que em Lisboa ou Porto, a região enfrenta uma pressão de procura turística e de residência secundária que tornou a habitação uma miragem para quem cá vive e trabalha. É a tempestade perfeita para uma crise social", afirma Ricardo Sousa, CEO da Century 21 Portugal.
No Algarve, os rendimentos mensais líquidos rondam 1.400 euros na maioria dos concelhos, atingindo cerca de 1.674 euros em Faro – valores inferiores aos das principais áreas metropolitanas. Em contrapartida, os preços apresentam uma grande amplitude: Faro e Portimão rondam os 260.000 euros por 90 m², enquanto Lagos e Loulé ultrapassam os 300.000 euros, sendo Loulé o mercado mais caro, com cerca de 360.000 euros. No arrendamento, as rendas variam entre 1.100 e 1.400 euros.
No estudo, a Century 21 revela que desde 2022, comprar casa passou a exigir mais 65.000 a 106.000 euros, enquanto arrendar implica acréscimos mensais de 300 a 570 euros. Os rendimentos, porém, cresceram apenas entre 170 e 240 euros no mesmo período.
Neste cenário, a área habitacional acessível dentro de um orçamento considerado sustentável (<33% do rendimento) encolheu para valores mínimos nacionais. Num esforço ideal, as famílias algarvias podem hoje aspirar a uma habitação entre 30 e 45 m², menos de metade da área de referência do estudo (90 m²). Ainda assim, a compra tornou-se a opção de custo mensal mais baixo (e, por isso, "dominante") na maioria dos concelhos.
A situação de rutura no Algarve é o caso mais extremo de um padrão nacional que atinge com força todo o litoral. O estudo revela um Portugal a duas velocidades, onde a crise habitacional se aprofunda nas regiões costeiras e turísticas, enquanto o interior resiste, mas sob pressão crescente.
"O Algarve é a ponta do icebergue, mas a pressão é sentida de forma brutal em todo o litoral. As áreas metropolitanas de Lisboa e Porto seguem o mesmo caminho de inacessibilidade. Em 2025, todas as cidades do Algarve, Área Metropolitana de Lisboa e Área Metropolitana do Porto, tornaram-se inacessíveis no arrendamento para uma família média local. É um sinal estrutural de alerta", contextualiza Ricardo Sousa.
O estudo conclui que os preços das casas praticamente duplicaram nos últimos cinco anos, com uma nova aceleração de 23,4% em 2025, enquanto os rendimentos cresceram a um ritmo muito mais lento.
Perante um problema estrutural, só soluções estruturais são eficazes. "Não se trata apenas de construir mais casas", sublinha Ricardo Sousa, "é onde se constrói, como se constrói e para quem se constrói". Para traduzir esta visão em ação, a empresa apresenta um conjunto de medidas urgentes a implementar de imediato, nomeadamente: aumentar o parque de habitação social de forma sustentada; revisitar os Planos Diretores Municipais numa escala metropolitana integrada; rever os códigos de construção para agilizar e modernizar o processo e investir em I&D para impulsionar a industrialização da construção.
"Não basta diagnosticar, é preciso agir. Colocamos estes dados à disposição da sociedade e dos decisores, com a convicção de que a transparência é o primeiro passo para políticas públicas eficazes. Na habitação, mais do que opiniões, o país precisa de diagnósticos sólidos e de execução consistente numa lógica de longo prazo para construir cidades sustentáveis, resilientes, acessíveis e inclusivas", conclui Ricardo Sousa.