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Quando a saudade nos prejudica

Quando a saudade nos prejudica
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04-01-2016 - 17:07
Uma palavra amplamente conhecida na cultura portuguesa, onde a saudade assume um papel único, inconfundível e que faz parte da própria essência de um povo.
 
A saudade está presente do mais novo ao mais velho, sendo que a sua raiz cultural está ligada à solidão; à ausência de alguém que se ama, seja por muito ou pouco tempo, seja por uma perda definitiva ou temporária. A saudade está ligada aos hábitos e costumes, tal como a uma expressão afetiva. Diz-se que o termo saudade vivido pelos portugueses, não tem tradução para outros idiomas, na medida em que, “saudade é a dor de uma ausência que temos prazer em sentir.”
 
Neste sentido, não sendo uma particularidade da língua portuguesa, já que deriva do latim, a palavra saudade assume um sentido completamente original e genuíno, não podendo confundir-se com nostalgia ou vontade de regressar ao lar como acontece noutros idiomas românticos. 
 
A originalidade portuguesa foi a ampliação do termo a situações que não a solidão sentida pela falta do lar, mas uma saudade tida como a dor que faz parte da própria condição humana, pelo que é encarada com naturalidade e até essencial ao bem-estar.
 
A título de curiosidade, a Revista Língua Portuguesa descreve que, “é um sentimento que existe em árabe, na expressão alistiyáqu 'ilal watani’, sendo que, a par do latim, a palavra saudade que conhecemos, poderá ter recebido essas influências.”
 
Os portugueses referem-se à saudade como uma forma de manifestar afeto pelos outros. Sentir saudade revela amor, desejo, carinho, proteção e interesse. É uma manifestação afetiva que se assume quase como que uma condição para gostar de alguém. “Quem não sente saudades, não ama.” Esta é a base de um namoro, de uma relação entre pais e filhos, de amizade e praticamente uma “exigência” para manter os laços afetivos. A família está distante, mas “mata saudades no Natal, no verão. Fala através dos meios digitais, mas não é a mesma coisa que dar aquele beijo e abraço, sentir o outro junto a si.”
 
Com toda esta emotividade, não é de admirar que a saudade possa conduzir ao desespero, à depressão e a um conjunto de doenças como a hipertensão, a diabetes ou manifestar-se através da ansiedade.
 
Para os especialistas, tudo tem um ponto de equilíbrio. Se aceitamos que esta seja uma forma de vida do nosso povo, temos de alertar para os perigos inerentes aos excessos.
 
Não é saudável viver a saudade sem que nada se faça para manter a alegria, o entusiasmo e a vontade de viver. A saudade tem de assumir um papel positivo e não destrutivo. Há muitos problemas de saúde resultantes dessa apatia e falta de reação perante a distância de alguém que se ama ou de um luto que se insiste em não realizar perante uma morte. Os efeitos nocivos desta incapacidade de continuar a vida são muito perigosos e conduzem a estados de doença muito graves.
 
A saudade é positiva quando nos serve de conforto, de alegria, de motivação para fazer as coisas. “Saber que se trabalha, mesmo que se esteja distante de quem se ama, dá-nos ânimo para oferecer mais qualidade de vida aos que nos são queridos. O mesmo se passa com a ausência dos filhos que estão a estudar fora para construir um futuro melhor. O namoro que se alimenta com horas e dias de ausência e que se renova no encontro.”
 
O luto face a uma perda tem de ser feito e, em muitos casos, apoiado seja por amigos, familiares ou profissionais de saúde, pois nem sempre se resiste à saudade, tal como nem sempre estão reunidas as condições dentro do sujeito para manter esse alento que tem de ser construído. 
 
O facto de existir uma aceitação natural da saudade pode conduzir precisamente a uma apatia face à luta contra o seu “lado prejudicial”, alertam os especialistas.
 
A saudade envolve essencialmente o plano emocional, mas as suas consequências negativas refletem-se em todo o organismo. Há uma acumulação de sofrimento, uma apatia perante a vida e os cuidados de saúde, ao mesmo tempo que pode ocorrer um desinteresse pelas atividades diárias, pelo prazer de vida e uma forte diminuição do amor-próprio. 
 
A saudade será tão mais saudável quanto for vivida com maturidade, ou seja, na base do conhecimento e na tentativa de compreender as situações que nos acontecem. A infância não volta, nem qualquer outro tempo de vida, pelo que não há forma de prolongar o impossível. A saudade tem de ser transformada naquilo que o sujeito é no presente e que recebeu do seu passado.
 
Também “nada se repete”, pelo que devemos agarrar aquilo que de melhor aprendemos e sentimos como inspiração para outras realidades. 
 
É comum recordar o passado, lamentar o que se perdeu e deixar escapar o que se pode fazer no presente e idealizar para o futuro, pelo que a saudade tem de ser encarada de uma forma realista, “o tempo não volta atrás, mas eu sou o reflexo desse tempo.”
 
As perdas têm de ser aceites e entendidas no contexto de cada um, na certeza de que, esse processo de consciência pessoal é fundamental para ultrapassar uma dor muito profunda.
 
Os especialistas recomendam que se aprenda a substituir, a valorizar mais e melhor o que se tem, como forma de “compensar” aquilo que se perde. Desenvolver essa capacidade de analisar e de olhar o todo em vez das partes, ajuda a seguir a vida em frente e de uma forma mais saudável e positiva.
 
Ao mesmo tempo, é fundamental falar sobre os sentimentos abertamente, pois é uma forma de “aliviar” essa pressão interior.
 
Um dos problemas inerentes “ao excesso de saudade” é precisamente a idade, pois com as vivências e o desgaste do organismo, perdem-se muitos dos mecanismos naturais que permitem a regeneração das células, em especial cerebrais que influenciam estes processos. Não é por acaso que, a saudade assume um papel mais doloroso na velhice, altura em que a solidão se assume com mais força pela ausência do trabalho, pelo maior afastamento social e até familiar, o que sugere cuidados adicionais para com os grupos mais vulneráveis.
 
Os entendidos recomendam que se procure manter uma vida ativa após a reforma, bem como um grupo de amigos. A família também assume o seu papel crucial na manutenção destes sentimentos, uma vez que, não pode descurar o percurso dos mais velhos e deve apoiá-los numa fase de vida de maior carência a todos os níveis.
 
A dor que se sente por prazer tem de ser analisada em cada etapa e renovado o seu sentido, sob pena de se tornar na mais triste das destruições humanas. “O vazio tem de ser compensado com emoções e gestos afetivos compensatórios.”
 
 
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