siga-nos | seja fã
PUB
 

“O tempo tudo apaga”(?)

Imprimir Partilhar por email
19-05-2014 - 21:56
É muito comum usar expressões como” Dá tempo ao tempo”, “O tempo tudo apaga”, “Ainda não é tempo suficiente para esqueceres isso ou aquela pessoa”, mas será que este dito popular é verídico? Será que o passar do tempo tem algum tipo de influência nos registos que guardamos?
 
Começo por relatar algo simples, que ouvi num dia destes num programa televisivo: “Uma mãe nunca aceita a morte de um filho e nunca o conseguirá esquecer e deixar de amar”. Só por aqui já se percebe que, talvez andemos “enganamos” quando depositamos no tempo a esperança de nos oferecer mais liberdade e capacidade para lutar sem a sensação de falta ou de perda de alguém.
 
Depois, é impossível que o tempo apague a dor de uma traição ou a alegria de uma infância feliz.
 
Então podemos questionar-nos se, efectivamente o tempo tem alguma influência nas emoções humanas e até que ponto nos ajuda, ou pode impedir de evoluir, pois sabendo que, á partida, não se perde nos nossos registos cerebrais, como é que se ultrapassa a dor, o afastamento de algo que nos faz bem e, daí por diante?
 
De uma forma muito linear, os entendidos explicam que, o nosso cérebro é comparável a um computador, podendo arquivar-se a informação, com a vantagem de, a nossa memória não ter limites, logo, os conteúdos entram e passam para um arquivo. Caso consigamos gerir os conteúdos, podemos prosseguir a nossa vida sem grandes problemas, uma vez que, essa informação só vai suportar as aquisições e ajudar-nos a proteger-nos, ou a procurar as emoções que nos fazem felizes. Contudo, quando essa informação não é bem esclarecida, interpretada e aceite de alguma forma, ao mínimo sinal de semelhança com aquilo a que se designa “trauma”, é fácil reviver os momentos com emoções quase idênticas. É quase como se o arquivo ficasse vulnerável ao mínimo impacto e, imediatamente pronto para ser vivido em tempo presente.
 
Não é por acaso que, a ciência, nomeadamente a psicologia, possui técnicas que se designam genericamente por psicoterapia, em que, num conjunto de sessões, o sujeito aprende a viver com os dramas e a conferir-lhes sentidos possíveis de lidar.
 
A psicoterapia permite que o cérebro “arquive” de forma correcta a informação, que a coloque num lugar de menor destaque no quotidiano, de forma a que o sujeito não se veja impedido de realizar as suas acções devido a esse marco negativo.
 
Nas mesmas sessões, o paciente fala do que o inquieta e, em conjunto com o profissional, aprende a encontrar formas de “arquivo” que permitam uma gestão mais positiva dos factos.
 
Esta é a diferença entre alguém que pede ajuda e segue em frente e, a pessoa que “fica à espera que o tempo cure o mal” e acaba por não conseguir dar um novo sentido à sua vida depois do trauma que vivenciou.
 
Esta situação é muito comum por exemplo numa separação. Não são muitas as pessoas que procuram apoio psicológico após um desfecho doloroso, pelo que, na maioria das situações, acabam por não conseguir manter uma nova relação devido ás memórias negativas. Há mesmo quem não volte a arriscar outro relacionamento ou quem “se vingue” em alguém que não tem qualquer responsabilidade na sua vivência negativa. Também são muitos os casos de pessoas que, generalizam e optam por fechar a porta aos afectos, porque alguém traiu a sua confiança, feriu os seus sentimentos ou não mereceu o seu amor.
 
O mesmo se passa nas relações familiares em que, dificilmente se esquecem as mágoas provenientes de conflitos e, “o tempo passa sem apagar as sensações negativas que nos impedem de estar com outras pessoas”. 
 
É igualmente comum que, se faça a transferência de “padrões” para outras pessoas e que, como tal, “como o tempo não curou as feridas, todos vão seguir o mesmo rumo”.
 
De facto, era comum no passado que, “fizesse parte dos castigos de cada um” a dor diária pela perda, fosse de um amigo, fosse pela morte de alguém ou pela separação. Tudo o que nos acontecia de negativo era explicado como uma justificação pelos actos cometidos. Viver em sofrimento era encarado como “um resultado do que se fez a outra pessoa e, algo merecido, logo, não se podia ajudar a superar porque fazia parte da sua “missão” no mundo.
 
Termos como “penar” faziam parte do vocabulário das gentes, na sua maioria menos letradas, que aceitavam a condenação a um sofrimento como “ a sina, ou a cruz que tens de carregar”.
 
Talvez seja nessa base que se utilizasse tão frequentemente a questão do tempo como reparador ou capaz de curar. O mesmo procedimento era levado também para a doença, em que uns procuravam tratamento e, outros “esperavam que o tempo curasse”.
 
De todo que, o progresso trouxe novos sentidos para esta realidade, no entanto, bem sabemos que, existe uma grande diferença entre o que se sente no dia de uma tragédia e, como se encara a situação um mês e um ano depois. 
 
É um facto incontornável que o tempo retira a carga emocional das situações, já que a distância dessa dor permite que, a vivência seja encarada de forma mais distante e, que seja mais relativizada. Ainda assim, uma pessoa que mantenha o trauma sem qualquer tipo de intervenção, nem que seja pessoal; uma tentativa de compreender o que se passou, provavelmente, manterá um vínculo mais forte ao incidente e, “ao mínimo sinal, o gatilho dispara”.
 
No fundo, este apontamento, convida-nos a reflectir acerca do que nos aconteceu e, de que forma lidamos com o nosso passado, seja ele mais ou menos recente e, ao mesmo tempo, recorda-nos que, temos uma memória selectiva, razão pela qual nos lembramos melhor de umas situações que de outras, pois afinal, também não poderíamos registar tudo e ter bem presente a informação que recolhemos desde o início da nossa vida. No entanto, aquilo que nos faz sofrer, por norma, permanece nesse arquivo e, pode ser sublimado, explicado, interpretado, mas não se esquece.
 
É mais provável que nos esqueçamos de uma memória feliz de qualquer etapa de vida, que apagar algo que nos magoou, mesmo que saibamos “dar a volta à situação”.
 
 
COMENTÁRIOS
 
MAIS NOTÍCIAS
-

Educação: orientar as crianças para a maturidade emocional



-

Educação: o que não se deve (de forma alguma) fazer a uma criança



-

“Crianças que não brincam, ficam doentes” – Mário Cordeiro



-

Sabe o que é Síndrome de Húbris? É a doença do poder!



-

Sabe identificar um sociopata?



PUB
 
PUB
 
ÁREA CLIENTES
Restaurante Os Arcos
A melhor gastronomia algarvia
ver mais
 
Escola de Condução C.C.S
Escola de Condução para Motociclos e Veículos Ligeiros.
ver mais
 
Loja das Taças
Se és campeão a loja das Taças põe-te o Troféu na mão
ver mais
 
 
 
NOTÍCIA MAIS LIDA DO MOMENTO
"Crepe Algarvio" estreia-se na Feira da Serra de S. Brás de Alportel pela mão de um talento

"Crepe Algarvio" estreia-se na Feira da Serra de S. Brás de Alportel pela mão de um talento

ver mais
 
 
  
ÚLTIMAS NOTÍCIAS
Cidade voltou a unir-se em torno da 36ª Concentração de Motos de Faro

Cidade voltou a unir-se em torno da 36ª Concentração de Motos de Faro

ver mais
 
"Crepe Algarvio" estreia-se na Feira da Serra de S. Brás de Alportel pela mão de um talento

"Crepe Algarvio" estreia-se na Feira da Serra de S. Brás de Alportel pela mão de um talento

ver mais
 
Criado Grupo de Apoio à Pessoa Idosa de Lagoa para intervir sempre que necessário

Criado Grupo de Apoio à Pessoa Idosa de Lagoa para intervir sempre que necessário

ver mais
 
 
 
Allô Pizza Escola de Condução C.C.S Loja das Taças Restaurante Os Arcos
» Sociedade» Fichas de Leitura» Desporto» Click Saúde
» Economia» Figuras da nossa Terra» Política» CX de Correio