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Família: uma escola de rancores?

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28-04-2014 - 23:21
De acordo com a posição de muitos especialistas, a família; o grupo que mais deveria proteger os seus membros, é muitas vezes, uma escola de rancores, devido a mal-entendidos de base; a conflitos iniciados no berço e que influenciam gerações.
 
Não sendo regra esta tomada de posição, a verdade é que, “na era do consumo” e na falta dele para muitas pessoas, tem vindo a lume um conjunto de problemas que se arrastam no tempo e que afastam os membros de uma mesma família pela falta de diálogo, de entendimento, pela definição de posições e, sobretudo, pelo respeito pela diferença e aceitação da mudança que o novo tempo acarretou.
 
Se recuarmos duas ou três décadas, verificamos que, em poucos anos se alterou profundamente o conceito de família na nossa sociedade. Se o divórcio explica uma boa parte das alterações e da criação de novos modelos familiares, não só as separações “autorizadas” são o centro das interpretações para a fragmentação familiar conhecida no nosso país.
 
Pegando no tema de uma forma muito linear, pode dizer-se que, tudo se inicia no berço, quando o bebé recebe os primeiros estímulos, visitas de familiares, respeito e aceitação. E, neste capítulo, é conhecido que, em muitas famílias, o nascimento de um novo elemento nem sempre é um momento de celebração. 
 
Depois, aproveita-se tudo o que esse acto envolve para criar novos dramas. A escolha do nome que pode ferir uma parte da família, o baptizado e os que são ou não convidados, as festas de aniversário e daí por diante. 
 
Se existisse um sentimento familiar, igualmente estaria subjacente a liberdade de cada, pois não são as escolhas individuais que devem ou podem comprometer os sentimentos, mas na realidade, é isso que acontece, pelo que se pode afirmar que, as pessoas se zangam mesmo “por tudo e por nada”, pelo fazer ou pelo deixar de fazer”, quando teoricamente todos dizem que “és livre para tomar as tuas decisões”!
 
Uma das bases dos problemas familiares talvez seja a hipocrisia, pois todos se aceitam e todos se julgam, ou não se tratasse de uma relação muito próxima em que tudo é analisado ao detalhe, mas não respeitado.
 
Ao mesmo tempo, existem as facções que, são um dos maiores dramas! O grupo da mãe e o grupo do pai. A família que aceita e respeita e a que julga e critica, os membros que “mandam as farpas” e os que as recebem e… em casamentos, baptizados e funerais é que tudo se complica, pois é quando as pessoas se reúnem e as “guerras” ganham uma nova expressão.
 
Há famílias em que tudo se disfarça; fala-se com “os de fora e nunca há problemas de maior”, enquanto que noutras, “não se perde uma oportunidade para mostrar desagrado e para colocar tudo em pratos limpos”.
 
No fundo, esta descrição só revela que, a família é muito importante para o ser humano e que, talvez por isso, seja o espaço onde se geram os maiores conflitos, pois também é o lugar onde os sentimentos ganham mais expressão, nem que seja pelo laço familiar. Mas também é o grupo onde existe mais liberdade para se dizer o que se pensa e, o que não se pensa, onde se finge e mente mais, porque é um palco de invejas, o que condiciona a relação com os seus membros. Sem esquecer que, a família é o lugar onde há mais traições e perdas de confiança.
 
Aparentemente vivemos numa sociedade desligada e despreocupada com os seus membros, mas na hora da crítica, não importa que seja um bebé uma criança, um adolescente ou um adulto, pois concentram-se todos os traumas mal esclarecidos de um passado negativo, sobre quem chegou ao mundo pela primeira vez e, já tem os movimentos e os afectos condicionados por uma parte significativa de pessoas.
 
O mau-estar existente em muitos familiares; a quem não olha a meios para atingir os seus fins, pois sempre que existe um novo acontecimento, renovam-se os problemas do passado que ficaram intactos desde o último encontro, pelo que, não importa qual é a ocasião e, se é propício fazê-lo, simplesmente é a oportunidade desejada para “estragar a festa, pois a vingança é um prato que se serve frio”.
 
Rodeada de indefinições e, sem espaço para a mudança, a relação familiar prossegue ao sabor do que se diz, do que se pensa e, não a partir do que se sente ou da razão que possa ditar o que efectivamente se deveria fazer.
 
Note-se que, na maioria das relações interpessoais que se vive ao longo da vida, poucas ganham esta dimensão e poder como a familiar, pelo que, associar a família a uma escola de rancores é, algo tão elementar como explicar que, é dentro da própria casa; no seio daqueles que nos são mais chegados, que se substitui o carinho pela ansiedade e negatividade de outros tempos. 
 
As palavras que se disseram, os gestos que não se ofereceram, os conflitos que não se superaram trespassam para o novo ser de forma gratuita, involuntária e destrutiva, o que dá lugar a um novo ciclo de gerações rancorosas, ciumentas e sem qualquer apego pelos seus familiares, pois o problema é está na base e, já passou a ser entendido como uma característica.
 
Quando há um nascimento na família, os pais recordam em silêncio do que queriam ter feito aos filhos e sentem mágoa por não o terem realizado, logo começa a nostalgia. Os filhos e futuros pais, rejeitam a postura dos avós que, não souberam ser os melhores pais e que se preparam para querer orientar os destinos dos netos e, o padrão está instalado, sem espaço para o bom-senso que poderia alterar as coisas e dar lugar a um novo ciclo.
 
Nunca podemos generalizar, muito menos afirmar que, muitas pessoas se encaixam nesta realidade, mas é um ponto assente que, não é desejável que, este “padrão familiar” exista com mais ou menos clareza e, capacidade de o assumir, com mais ou menos liberdade para modificar o que se arrasta há séculos…
 
Não tenhamos dúvidas de que, só há mudança, quando se toma consciência do erro, pelo que, aceitar que se faz mal, é dar um enorme passo em frente para alterar o rumo das nossas vidas e, da relação com a nossa família.
 
Efectivamente, temos de dar razão a quem defende que, um dos problemas que, deu azo a esta versão deturpada de família, se prendeu com o excesso de vivência ditatorial no nosso país, pois o facto de muitos membros se sentirem sufocados pelos “mais ricos” ou “poderosos” que lhes orientavam as vidas, fez com que, na primeira oportunidade, muitas famílias perdessem o seu núcleo e se transformassem noutros tipos de relação. A começar pela imposição do casamento e pela liberdade em aceitar uma união de facto, a escolha da maternidade, a mulher na profissão, o divórcio e daí por diante.
 
O sistema mais aberto criou oportunidades e gritos de liberdade que não conseguiram esclarecer e compreender o passado, pelo que, as gerações seguintes ficaram em planos opostos com as anteriores. 
 
Na realidade, assistimos a um cenário que se pode resumir: “os mais ricos”; que se habituaram a controlar “os mais pobres” e, perderam a sua função quando, os segundos, aproveitaram as oportunidades de crédito e, com elas, conseguiram acreditar que teriam um direito à independência, pelo que, no meio desta encruzilhada, a família ficou por reorganizar. Em muitos casos, percebe-se o abandono de idosos, de doentes e demais familiares que, numa fase debilitada, acabam por receber o retorno do que deram e do que não proporcionaram, mas sem compreender o motivo de tanto ódio e desprezo, já que, o sistema é que ditava as regras e não as pessoas.
 
Seria a falta de auto-análise que dava lugar a uma constante repetição de padrões negativos? Seria a fraca escolarização que se sobrepunha à coragem de dizer que se errou, que não se interpretou os novos sinais do tempo?
 
Se o regime não tivesse mudado, ainda hoje as pessoas que vivem em liberdade, não saberiam gozar desses direitos e, os que controlavam os demais, acabaram por sentir que perderam a sua função familiar.
 
Voltamos então à casa ou à escola dos rancores e, o mais grave é que, todos lamentam o estado a que os valores familiares chegou, mas parece que, mesmo nos grupos mais pequenos, o problema persiste e, sem forma de ser superado.
 
As famílias centram-se no seu núcleo; pais e filhos e, os restantes membros “só entram” se souberem como fazê-lo, se aceitarem alterar as regras do jogo e, acima de tudo, se tiverem muito respeito pelas escolhas dos filhos. Mais uma vez, o rancor é o sentimento mais vincado e, as novas gerações vão continuá-lo: até onde?
 
Um “segredo” para minimizar este impacto que se desenvolve e ganha expressão a cada geração, é que os pais modernos saibam criar laços afectivos com os seus filhos, que consigam mostrar-lhes o caminho da auto-confiança, do bem-estar e do equilíbrio, que tem como base a construção da auto-estima, pois esta atitude minimiza os sentimentos negativos e, evita a sua proliferação perigosa e destrutiva.
 
 Afinal, não se pode mudar a família, mas pode-se sempre alterar a nossa conduta e transmitir valores mais actualizados e livres dessa carga “rancorosa”.
 
 
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