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Até onde vai a ingratidão?

Até onde vai a ingratidão?
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23-06-2014 - 23:20
É com grande frequência que, qualquer um de nós recorda ou relata um episódio de ingratidão e, tem sorte aquela pessoa que o consegue divulgar, pois só assim poderá tomar uma maior consciência do que é a essência humana e, ao mesmo tempo, poder modificar algo em si mesmo.
 
Só a título de curiosidade, a ingratidão ocorre em 90% dos casos em que alguém oferece algum tipo de ajuda, seja afectiva, monetária, na conquista de um emprego, na mudança de um estatuto social e daí por diante. Logo, não admira que esta condição generosa do ser humano possa estar em conflito na maior parte das pessoas e que, cada vez mais, passe a um acto consciente e não a uma entrega gratuita do que somos e temos. Afinal, existem um conjunto de reticências no que se refere ao mero acto de apoiar ou ajudar alguém e, isso é preciso conhecer e ser considerado antes de aceder a um pedido.
 
Muitas são as pessoas que se culpabilizam por ter ajudado e por não terem recebido qualquer tipo de reconhecimento, pelo que, o ideal é saber como é que funciona a natureza humana e, só depois ponderar acerca da melhor forma de ajudar, pois há sempre soluções; há sempre gestos que podem significar muito para os outros e não nos prejudicar.
 
Para que se perceba um pouco melhor as motivações que estão por detrás da ingratidão, basta recordar um episódio do Evangelho – aquele em que Jesus curou os dez leprosos e só um voltou para agradecer. E ele perguntou: onde estão os outros nove? Pois é, os outros tentaram esquecer-se de que precisaram dessa ajuda num momento importante e, apenas um teve a honra e a coragem de reconhecer o feito de quem o ajudou.
 
Certamente que, muitas mais são as histórias que demonstram esta realidade ao longo dos tempos, a ponto de, muitos de nós, já temermos uma entrega a um pedido de apoio seja ele de quem for. Cabe mesmo a cada um ponderar se vale a pena oferecer determinados sacrifícios em prol dos demais, pois, cada uma à sua maneira, as pessoas encontram formas de “descartar” o reconhecimento e, as evidências científicas, apenas vêm reforçar o que qualquer um de nós aprendeu com as experiências.
 
 É imperioso ter em conta que, alguém que precisa de ajuda, seja porque está doente, com dificuldades financeiras, solitário, deprimido, em qualquer situação de crise ou mesmo que essa crise seja um status permanente, desde a infância, consegue reunir alguma força para se dirigir a uma pessoa que julgue poder auxiliá-lo, mas o orgulho humano, o facto de precisar do outro, tem algo de humilhante, pelo que, não é fácil pedir e aceitar ajuda sem ressentimentos. 
 
Esses ressentimentos não se projectam nas causas que nos colocaram numa situação difícil, mas sim em quem nos ajudou a superar essa realidade de vida. Por muito que nos custe ler isto, a verdade dos factos comprova-nos que, a natureza humana ultrapassa o sentimento de humilhação pelo facto de ter pedido ajuda, com um afastamento de quem lhe deu a mão e, uma procura de esquecimento desse gesto que o faz recordar a forma como vivia e as necessidades que tinha naquele período. 
 
É essa necessidade de “apagar essa página de vida” que impera na maioria das pessoas, que dá espaço à ingratidão; ao fazer de conta que ninguém nos ajudou a alcançar o sucesso e a desfrutar tranquilamente da “nossa” conquista.
 
Efectivamente, não teríamos capacidade de agradecer a todos que, ao longo da vida nos ajudam de alguma forma, mas ficar-nos-ía muito bem, pelo menos ter plena consciência de que ninguém consegue tudo sozinho e que, há pessoas determinantes para o nosso sucesso. Não fica mal dar-lhes esse mérito e, até retribuir com algo numa qualquer fase de vida.
 
Por norma, quem se disponibiliza para apoiar, fá-lo de coração aberto e com valores que residem no seu interior e que, parecem só estar à espera de uma oportunidade para serem colocados em prática. Dá o seu melhor, investe no outro como se de uma missão de vida se tratasse e, na maioria das vezes, esse altruísmo é gratuito; não espera algo em troca, o que facilita a tarefa de quem tem vergonha de pedir.
 
O despreendimento parece ser o alicerce fundamental para quem se sente humilhado, pelo que, quando essa pessoa que recebeu a ajuda, seja em forma de dinheiro, apoio, solidariedade, incentivo ou outros, se vê numa situação melhor, de maior segurança, com mais autonomia e até euforia, porque conquistou posições e patamares antes impensáveis (muitas vezes com o próprio esforço sim, mas a partir da ajuda recebida), já não se recorda daquele instante de fragilidade, e passa a negar para si mesma que precisou um dia de apoio.
 
Passa a existir uma necessidade de afirmação pessoal e uma tentativa constante de receber “os louros” do seu esforço sem que sinta necessidade de os dividir com quem “lhe deu a mão na hora certa”.
 
A ingratidão é de tal ordem que, o sujeito chega a negar a existência daquela pessoa na sua vida e faz tudo para afastar esse tipo de pensamentos.
 
Quando são relações interpessoais, por norma, o sofrimento de quem ajuda é grande porque se dá um pouco do seu tempo, afecto, dedicação em prol de uma recompensa vazia e ingrata, mas quando se trata da família e daqueles com quem se estabelecem laços afectivos, a dor sobe de tom.
 
Nestes casos, a ingratidão é quase indescritível porque, para além do ser apoiado querer esquecer quem o ajudou, quer demitir-se da ideia de retribuir essa ajuda.
 
Esta realidade passa-se muito entre pais e filhos, irmãos e demais familiares, uma vez que, naturalmente “uma mão deveria lavar a outra”, mas não é isso que se passa. 
 
Quando os pais precisam da ajuda dos filhos, acabam por contar apenas com a solidariedade do filho que foi mais prejudicado na relação familiar, pois o que recebeu a ajuda, rapidamente se esqueceu do assunto e “partiu para outra”, ou para um novo pedido, enquanto que, o filho que já ficou lesado pela falta de apoio, será aquele que está mais próximo e obrigado a ajudar, porque muitas vezes a sua conduta não lhe permite abandonar quem pelo menos o colocou no mundo, mudou as fraldas, deu pão e educação. 
 
Por outro lado, o filho “protegido” pelos pais, ainda reclama mais ajuda e, se possível do irmão! Isto acontece porque, os filhos que não são protegidos pelos pais, acabam por desenvolver um conjunto de valores humanos, enquanto que, o protegido acaba por conhecer bem o desapego, a fuga da humilhação de ter precisado dos pais e, a necessidade de se esquecer que, ao contrário dos irmãos, a sua conquista foi apoiada. Para negar essa condição, deixa os pais ao abandono e segue a sua vida na base material e sem qualquer tipo de gratidão. Logo aqui, esta é uma lição importante para os pais que “estragam” os filhos com uma ajuda infinita contando com uma retribuição na velhice que nunca vai acontecer.
 
O mesmo se passa entre irmãos que, recebem o apoio do outro irmão e, na hora de dividir os bens, acabam por se esquecer completamente que lhes deveriam uma atitude justa e uma recompensa acrescida pela ajuda que receberam numa determinada fase, mas, salvo raras excepções, isso não acontece e, ainda tem a agravante de, mais uma vez, serem esses irmãos que foram apoiados, os primeiros a prejudicar os benfeitores pela tal negação de reconhecimento, orgulho e egoísmo.
 
Todos sabemos que a ingratidão é muito mais forte que a gratidão, ou não estaríamos a falar de 90% dos casos, o que só nos deve colocar a pensar na vida de uma forma mais realista e pragmática, para não passarmos o tempo a lamentar a ingratidão humana.
 
Os pais lamentam ter ajudado mais um filho porque precisava naquele momento e, ter prejudicado o outro, mas esquecem-se de que, aquele que recebeu o apoio, jamais se quererá lembrar disso e, vai querer apagar da sua vida a ideia de que foi frágil e que passou um mau momento na vida, razão pela qual, nunca será esse filho a apoiá-los numa fase de dificuldades e de maior carência como é a velhice. Ao mesmo tempo, um filho que perdeu os laços afectivos, não terá qualquer capacidade para se aproximar das carências dos pais nessa fase de vida.
 
Não é por acaso que assistimos a tantos casos de abandono de idosos e famílias de costas viradas, pois os filhos que não são apoiados e que não foram contemplados no melhor que os pais tinham para dar, acabam por seguir as suas vidas com a desilusão do que lhes foi tirado. 
 
Os que receberam, precisam de se esquecer desse mau momento de vida e seguir os seus projectos e planos. E os pais onde ficam? Entregues ás suas memórias e desilusões, a carregar o peso da injustiça que fizeram, sempre a atribuir culpas à vida que os obrigou a dar mais a um filho que ao outro. Não será de todo de admirar que se sintam sozinhos e abandonados, pois Jesus dá-nos um exemplo que não pode ser descurado com os leprosos ingratos.
 
Definitivamente, o orgulho é mais forte que a gratidão e que o reconhecimento de quem nos fez bem, pelo que, de nada nos serve construir um castelo de sonhos, quando a realidade em nada se aproxima com esse “padrão”.
 
O orgulho não permite que o ser humano admita que já viveu numa situação delicada e que mudou o rumo com o apoio de alguém. Depois, temos o egoísmo que, confere um prazer enorme a quem conquistou o que pretendia e que, com tal sabor a vitória, não quer perder tempo a olhar para trás e a dividir o que já é seu.
 
Não nos esqueçamos de que, entregar dedicação e afecto a alguém que nos ajudou, traduz reduzir o nosso tempo para colher os sucessos, pelo que, não é mesmo por acaso que, poucos o fazem… Não há tempo a perder quando se ganha aquilo que se queria e, a amizade é exigente, as relações familiares são problemáticas e, o tempo é precioso para viver os sonhos alcançados.
 
Neste sentido, a mensagem que deixamos é simples: devemos ajudar e fazer o bem, sem procurar algo em troca. Jamais deveremos fazer algo acima das nossas possibilidades e de forma irresponsável, sob pena de carregarmos esse peso de consciência pela vida fora. Ajudar é dar aquilo que não nos faz falta, e não o essencial e, acima de tudo, é compreender a justiça dos nossos actos, pois se damos mais a um lado que a outro, isso vai ser-nos cobrado no futuro e com uma factura pesada.
 
Idealmente, os pais deveriam apoiar todos os filhos dentro das suas possibilidades e, dar a conhecer esse gesto, pois assim não se trataria de humilhação para os filhos, mas de generosidade. Ainda não é habitual, mas deveria ser, os pais conversarem com todos os filhos, explicarem os seus planos e intenções e, por que não, deixar bem claro que tudo o que existe na família será dividido por todos. Quando há um filho com algum tipo de necessidade extra, esse facto deve ser comunicado, pois se queremos mais gratidão, temos mesmo de começar dentro das nossas casas, na nossa vida e com os nossos exemplos. 
 
E anote, quem ajuda à procura de uma recompensa, jamais a obterá.
 
Claro que fica sempre ao critério de cada um!
 
Ivone Romeira
 
 
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